"O Direito me ajudou a fortalecer a minha luta", diz Mirtes após se formar em universidade
Mãe do menino Miguel afirma que formação representa "resistência" e uma "virada de chave" em sua vida
Publicado: 31/08/2026 às 20:10
Durante a entrada no evento, ao som da canção "Maria, Maria", de Milton Nascimento e Fernando Brant, Mirtes caminhou acompanhada enquanto segurava a foto de Miguel Otávio em um porta-retrato. (Reprodução/Redes Sociais. )
A formação em Direito representa mais do que uma conquista acadêmica para Mirtes Renata Santana, mãe de Miguel Otávio, menino que morreu aos 5 anos após cair do nono andar de um edifício no Recife, em 2020. Para ela, concluir a graduação, cuja cerimônia aconteceu no último sábado (29), no Grande Recife, também significa fortalecer a busca por justiça pela morte do filho e transformar uma trajetória marcada pela dor.
“Para mim representa resistência, sabe? Uma virada de chave na vida. Porque depois que eu perdi Miguel, infelizmente, eu não pude viver o luto que eu precisei. Eu tive que ir para a rua cobrar, cobrar por justiça. Então, a formação em Direito foi uma forma de ressignificar a vida e também uma forma de cobrar de forma qualificada a justiça pela morte do meu filho”, afirmou Mirtes ao Diario de Pernambuco.
Durante a cerimônia, Mirtes entrou no evento segurando um porta-retrato com uma fotografia de Miguel. Ao som de “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, ela foi acompanhada pela mãe, Marta, pela irmã, Fabiana, e por duas amigas. No telão do salão, a mesma imagem do menino era exibida.
Amor pelo filho ajudou Mirtes a concluir o curso
A trajetória até a formação, no entanto, não foi fácil. Mirtes conta que pensou diversas vezes em abandonar a graduação diante das dificuldades enfrentadas ao longo do curso.
“Eu pensei muitas vezes em desistir, não nego. Foi uma trajetória bem difícil, muitos desafios, foi tudo muito doloroso, mas eu consegui finalizar o curso de Direito”, contou.
Segundo ela, o amor por Miguel e o desejo de honrar a memória do filho foram fundamentais para continuar: “O que realmente fez com que eu não desistisse foi o amor que eu tenho pelo meu filho. É honrar a memória dele, honrar a missão que ele me deu. Por isso que eu não desisti, mesmo diante de tantas dificuldades.”
Ao olhar para o caminho percorrido, Mirtes diz sentir gratidão e orgulho pela conquista. Para ela, a presença de Miguel continua sendo uma força durante sua trajetória.
“Meu filho está lá em cima olhando por mim. Deve estar muito orgulhoso da mãe dele. Eu tenho total certeza. Ele deve estar mega feliz. Eu nutro esse sentimento no meu coração, que meu filho está muito feliz por mim”, afirmou.
Ela concluiu a graduação na faculdade Uninassau e recebeu nota 10 no trabalho de conclusão de curso (TCC), que abordou o tema "Trabalho Escravo Contemporâneo e Direitos Fundamentais: Uma análise de proteção constitucional brasileira com foco nas trabalhadoras domésticas".
Busca por justiça
Mirtes também afirma que a formação ampliou sua compreensão sobre o processo judicial envolvendo a morte de Miguel. Antes de ingressar no curso de Direito, ela já havia passado por uma formação política e trabalhado com organizações sociais, experiências que, segundo ela, contribuíram para ampliar sua percepção sobre as situações que enfrentava.
O curso, afirma, veio para acrescentar conhecimento e oferecer novas ferramentas para sua luta.
“O Direito me deu novas ferramentas para compreender o processo e fortalecer essa luta. Sempre precisava que tivesse alguém do meu lado traduzindo aquilo que o juiz, um desembargador estava falando para mim. Então, o Direito me ajudou a fortalecer a minha luta e hoje, além da minha voz, tenho um conhecimento jurídico para poder seguir buscando justiça”, disse.
Agora, Mirtes pretende utilizar o conhecimento adquirido também para ajudar outras pessoas que enfrentam dificuldades no sistema de Justiça.
“Poder ajudar outras pessoas a não passar pelo que eu passo com o Judiciário pernambucano”, afirmou.
Caso Miguel
Miguel Otávio morreu em 2 de junho de 2020, aos 5 anos, após cair do nono andar de um edifício de luxo na área central do Recife. No momento do acidente, ele estava sob os cuidados da então patroa de Mirtes, Sari Corte Real.
Mirtes trabalhava como empregada doméstica na residência e havia saído para passear com o cachorro da família. O menino entrou no elevador à procura da mãe e desembarcou no nono andar, de onde caiu de uma altura de aproximadamente 35 metros.
Sari Corte Real foi condenada por abandono de incapaz com resultado de morte, com pena fixada em sete anos de prisão, e responde ao processo em liberdade.