Sem infraestrutura adequada, ciclistas recorrem à contramão e às calçadas no Grande Recife
Estudo revela que, em alguns trechos da RMR, quase metade dos ciclistas trafega na contramão, comportamento associado à ausência de infraestrutura cicloviária adequada
Publicado: 31/07/2026 às 20:09
Obras na orla de Boa Viagem geram reclamação de pedestres e ciclistas (Foto: Rafael Vieira/DP)
Em um monitoramento de apenas 14 horas, mais de 23 mil viagens de bicicleta foram registradas em 12 pontos da Região Metropolitana do Recife. No entanto, o crescimento do uso do modal lida com a falta de infraestrutura. Um levantamento da Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) mostra que, em diferentes municípios, ciclistas recorrem à contramão, às calçadas e até precisam descer da bicicleta para vencer obstáculos no caminho.
Em São Lourenço da Mata, 46% das viagens observadas foram feitas dessa forma. O comportamento também apareceu com frequência em Jaboatão dos Guararapes (31,5%), Itapissuma (26%), Igarassu (19%) e Olinda (18%).
Os dados fazem parte do Relatório de Contagens de Ciclistas 2026, estudo que analisou pontos estratégicos em Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe, São Lourenço da Mata, Paulista, Moreno, Abreu e Lima, Igarassu, Itapissuma, Ilha de Itamaracá, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, reunindo informações sobre volume de viagens, perfil dos usuários e comportamento no trânsito. O objetivo é subsidiar a reformulação do Plano Diretor Cicloviário da Região Metropolitana do Recife.
De acordo com a pesquisa, circular na contramão não pode ser interpretado apenas como descumprimento das normas de trânsito. A análise técnica aponta que esse comportamento está relacionado, principalmente, à ausência de infraestrutura adequada e à necessidade de manter trajetos mais curtos e seguros.
Em São Lourenço da Mata, por exemplo, o índice de 46% é atribuído à existência de vias de mão única que não oferecem rotas diretas para quem pedala. Em Jaboatão, onde 31,5% das viagens ocorreram na contramão, o relatório afirma que o comportamento aumentou nos últimos anos em razão da falta de conectividade linear da rede cicloviária.
Já em Itapissuma e Igarassu, muitos ciclistas utilizam trechos em sentido contrário para acessar passagens em canteiros centrais consideradas insuficientes ou mal posicionadas.
A pesquisa também mostra que outras práticas consideradas irregulares seguem a mesma lógica. Em Abreu e Lima, 35% das viagens ocorreram sobre calçadas, enquanto Camaragibe registrou 23% e Moreno, 21%. De acordo com a Ameciclo, o uso do passeio é uma resposta ao tráfego intenso de veículos e à circulação constante de ônibus e caminhões em vias estreitas.
Já o ato de descer da bicicleta e empurrá-la, identificado principalmente em Igarassu (13%) e Abreu e Lima (10%), aponta dificuldades para atravessar cruzamentos e rodovias ou superar trechos onde a infraestrutura interrompe a continuidade do percurso.
Mesmo que esses comportamentos mostrem dificuldades enfrentadas pelos ciclistas, os números indicam que a bicicleta permanece como um meio de transporte consolidado na Região Metropolitana.
Durante o período de monitoramento, foram registradas 5.071 viagens em Jaboatão dos Guararapes e 3.968 em Olinda, os maiores volumes da pesquisa. Cabo de Santo Agostinho (2.421) e Ipojuca (2.416) também apresentaram fluxo elevado, enquanto municípios de menor porte, como Itapissuma (1.516) e Ilha de Itamaracá (1.631), registraram movimentação expressiva.
Para a entidade, esses resultados demonstram que o uso da bicicleta depende do tamanho da população e da dinâmica de deslocamentos e da função que o modal exerce em cada município.
Além disso, a maior parte dos municípios apresentou picos de circulação no início da manhã e, principalmente, entre 17h e 18h, período de retorno do trabalho e da escola. Em cidades como Jaboatão, Paulista, Camaragibe, Abreu e Lima e Igarassu, o movimento intenso já começa às 6h, indicando deslocamentos de longa distância.
Para a Ameciclo, comportamentos como pedalar na contramão, utilizar calçadas ou empurrar a bicicleta devem ser compreendidos como respostas às condições encontradas nas vias, e não apenas como escolhas individuais dos ciclistas.