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RESSOCIALIZAÇÃO

"Quero abrir um restaurante": curso de cozinha alimenta sonho de recomeço de egressos do sistema prisional

A capacitação que acontece até a próxima segunda-feira (27), reúne 50 pessoas em regime aberto e livramento condicional e oferece qualificação para quem busca uma nova oportunidade de trabalho

Cadu Silva

Publicado: 20/07/2026 às 15:57

Curso de cozinheiro promovido pelo Patronato Penitenciário de Pernambuco/Rafael Vieira/DP

Curso de cozinheiro promovido pelo Patronato Penitenciário de Pernambuco (Rafael Vieira/DP)

“Penso em fazer mais cursos de cozinheiro, me aperfeiçoar e abrir um restaurante.” Essa a afirmação é de José Michael da Silva Santos, de 34 anos, que enxerga na gastronomia uma oportunidade de mudar de vida, após passar pelo sistema penitenciário.

O sonho dele é compartilhado por outros 49 participantes do curso de cozinheiro promovido pelo Patronato Penitenciário de Pernambuco, que aposta na qualificação profissional como ferramenta de reinserção social para egressos do regime aberto e do livramento condicional.

A capacitação, que segue até o dia 27 de julho, é realizada na sede do Patronato, no bairro de São José, em parceria com o Centro de Capacitação e Formação Pública (Cefop) e o Instituto Pró-Cidadão.

Segundo a superintendente do Patronato Penitenciário de Pernambuco, Anna Rafaella, a qualificação profissional é uma etapa fundamental do processo de reinserção social.

“A gente dá condições para que essa pessoa ressignifique a própria vida e tenha mais oportunidades no mercado de trabalho”, afirmou.

Reconstruindo a própria história

Depois de quase três anos no sistema prisional, José Michael da Silva Santos conta que o desejo agora é reconstruir a própria história. Antes da prisão, trabalhava como ambulante em ônibus e também com reciclagem. Ele relata que já cumpria medidas relacionadas a um processo antigo quando voltou ao sistema prisional. Hoje, afirma que o maior desafio é convencer as pessoas de que mudou.

“Quero provar para minha família que eu mudei, criar minhas duas filhas e não quero mais nada de errado na minha vida”, afirma.

As histórias se cruzam na sala de aula, mas cada aluno carrega uma motivação diferente. Jonas Vitor Silva dos Santos, de 27 anos, também vê no curso uma oportunidade que não encontrou no mercado de trabalho. Pai de cinco filhos, ele conta que passou nove meses procurando emprego depois de deixar o sistema prisional.

Distribuiu currículos, aguardou ligações que nunca chegaram e, ao procurar o Patronato, esperava sair de lá com uma vaga de trabalho. Em vez disso, recebeu outro convite: ocupar uma cadeira na sala de aula.

Acostumado a trabalhar como servente de pedreiro, ajudante de pintor e auxiliar de cenografia, Jonas descobriu que cozinhar também poderia ser um caminho profissional. Em casa, era ele quem preparava as refeições da família. Agora, quer transformar essa habilidade em fonte de renda.

“Quero aprender mais e conseguir uma oportunidade para melhorar a vida dos meus filhos.”

José Tiago da Costa Ferreira Cruz, de 38 anos, passou quase seis anos no sistema prisional. Nesse período, perdeu o pai e a mãe e não pôde participar do velório nem do enterro de nenhum dos dois.

“O lugar não é para ninguém. Todo mundo sofre. Quem está lá dentro e quem fica do lado de fora também.”

Hoje, a rotina dele começa cedo. Pela manhã, frequenta as aulas do curso de cozinheiro. À tarde, trabalha em um emprego temporário. Toda essa disposição tem um motivo: o filho, que completou um ano e dez meses nesta segunda-feira (20).

“Quero colocar meu filho em uma escola boa e dar a ele o que eu não tive. Não quero que ele passe pelo que eu passei.”

A história de Jaerson Melo Ferreira, de 33 anos, também é marcada pelo tempo perdido. Foram 11 anos e 10 meses no sistema prisional. Quando deixou a prisão, a filha já tinha 15 anos. “Perdi a infância dela. Ela cresceu através de outras pessoas.”

Hoje, ele trabalha, frequenta o curso e diz que faz questão de mostrar que o passado não precisa definir o futuro.

“O que eu espero é uma oportunidade de emprego para mostrar que quem passou pelo sistema prisional também pode trabalhar, reconstruir a própria vida e contribuir com a sociedade.”

Muito além das receitas

Segundo a superintendente do Patronato Penitenciário de Pernambuco, Anna Rafaella, o objetivo da qualificação vai além do aprendizado técnico. O órgão atende entre 300 e 400 egressos por ano e mantém mais de 42 acordos de cooperação com empresas para facilitar a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho.

Ela afirma que cerca de 90% dos participantes conseguem emprego após a conclusão dos cursos. Para garantir a permanência dos alunos nas aulas, o Patronato oferece transporte, alimentação e material didático.

"Na próxima semana, a turma encerrará a capacitação preparando refeições que serão destinadas a unidades de acolhimento de crianças e adolescentes vinculadas à Secretaria Estadual de Assistência Social".

A secretária executiva de Assistência Social, Camila Godê, afirma que a iniciativa fortalece tanto a política de acolhimento quanto o processo de reinserção social. “Quando mostramos que eles podem contribuir para outras pessoas, fortalecemos essa retomada da vida em sociedade”, disse.

Responsável pelo curso, a chef Luciana Lima conta que encontrou uma turma participativa, que rapidamente criou vínculo com as aulas. Além das técnicas de preparo dos alimentos, ela ensina práticas de reaproveitamento, controle de desperdício e precificação dos pratos.

O momento que mais a marcou ocorreu ao fim de uma das aulas. Segundo a professora, o aprendizado vai além da formação profissional.

“Um aluno me pediu um abraço e disse que ninguém nunca tinha feito aquilo por ele. Isso foi muito gratificante. Tenho certeza de que eles vão levar esse aprendizado para a vida. Muitos descobriram que podem construir um futuro dentro e fora da cozinha”, relatou.

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