‘Chorei várias vezes’: paciente relata cenário ‘desumano’ e superlotação no Hospital Getúlio Vargas, no Recife
Relato inclui idosa há oito dias em maca de corredor e jovem com deficiência exposto durante troca de fralda; sindicato aponta déficit de até 400 profissionais e consumo de drogas nos banheiros
Publicado: 14/06/2026 às 16:33
Paciente ficou internado dois dias no Hospital Getúlio Vargas e afirma ter chorado ao ver a situação dos enfermos (Foto: Cortesia)
“Chorei várias vezes ao ver a situação de superlotação desumana do hospital”. É assim que um paciente, que prefere manter o anonimato, descreve como foram os dias em que passou internado no Hospital Getúlio Vargas (HGV), na Zona Oeste do Recife. Em nota, a direção do HGV informou que os pacientes “recebem acompanhamento multiprofissional”.
À reportagem, ele conta que foi transferido, na madrugada da quinta-feira (4), para a unidade de saúde por suspeita de precisar realizar uma cirurgia, procedimento que foi descartado. Ele recebeu alta na manhã do sábado (6). No período em que esteve no HGV, ele relata ter presenciado cenas “de partir o coração”.
“Acho que o caso mais delicado para mim foi o de um rapaz com deficiência. A enfermeira trocou ele no corredor, na frente de todo mundo e colocou uma fralda porque ele tinha se urinado”, diz, recordando que o rapaz ficou completamente nu no corredor enquanto a enfermeira limpava sua maca.
De acordo com o paciente, pelo tempo que percebeu que o outro enfermo estava molhado, aquela profissional foi a única que se prontificou a fazer a troca. “Por mais que muitas delas [enfermeiras] fizessem um trabalho muito bem feito, pela demanda ser muito alta, elas demoravam para conseguir”, lamentou.
Internação
O paciente relatou que, logo na chegada, foi acomodado em uma maca improvisada no corredor da área de isolamento para Covid-19. Segundo ele, outros três pacientes estavam sendo posicionados em frente ao quarto de isolamento que, embora estivesse vazio naquele momento, permanecia reservado para eventuais casos confirmados. “O maqueiro me disse: ‘vou te colocar aqui porque, infelizmente, não tem outro lugar’”, lembra.
De acordo com ele, uma paciente com câncer no fígado já acumulava oito dias de espera em uma maca naquele corredor. “Ela foi a pessoa que eu mais interagi no tempo que fiquei lá. Na sexta à noite, depois de pressionar muito, ela conseguiu ir para um leito”, lembra ele.
Ele afirma que só saiu do setor horas antes de receber alta, ocasião em que a enfermeira-chefe teria passado por ali e avisado que mandaria um maqueiro transferi-lo. “Ela disse que ‘infelizmente nem era para eu estar ali, porque ali é área de isolamento da Covid-19’. Aí eu disse para ela que eu só estava lá porque disseram que não tinha espaço, e realmente estava superlotado. Só tinha maca no hospital todo”, diz.
Estrutura
O paciente relata que para obter informações sobre exames, os acompanhantes precisavam enfrentar filas de até 40 minutos na porta da sala dos médicos. Segundo ele, nessa fila não havia apenas pessoas aguardando para receber resultados, mas também pacientes em macas que buscavam atendimento.
“Eu só vi o médico duas vezes: quando cheguei e quando saí. Eles passavam correndo. Se você parava para perguntar, mandavam ir para a sala deles. Minha mãe teve que ir lá e eles nem citaram o resultado da tomografia que eu tinha feito”, relembra.
Ele afirma que as condições de higiene também deixavam a desejar. Isso porque o paciente afirma ter visto um dos copeiros apoiar as refeições que seriam distribuídas na área em cima de uma lixeira, o que chamou a atenção e gerou queixas entre os próprios funcionários.
O paciente também relata a falta de fiscalização dentro do HGV. Ele afirma que pacientes da ala ortopédica usavam os sanitários para fumar cigarro e até maconha. “Você entrava no banheiro e estava aquele cheiro. Não tem profissional suficiente para supervisionar, entendeu? É tenebrosa a situação”, diz.
Sindicato de Enfermagem
Segundo Ludmila Outtes, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do estado, a situação relatada pelo paciente não é um fato isolado, mas o reflexo de um problema crônico na saúde pública de Pernambuco. Ela afirma que as denúncias de superlotação nas emergências e o déficit de profissionais são recorrentes.
“O dimensionamento de enfermagem está muito abaixo do que deveria para prestar uma assistência de qualidade. Chutando por baixo, o hospital precisaria ter o dobro do efetivo geral atual [que gira entre 300 e 400 profissionais], subindo para algo entre 600 e 800”, afirma Ludmila.
De acordo com ela, a estimativa é de que haja apenas de 10 a 12 profissionais da enfermagem por plantão na emergência do HGV, um número insuficiente para a complexidade e a quantidade de pacientes que dão entrada no local.
Ludmila afirma que as queixas mais frequentes reportadas ao sindicato por profissionais do HGV são a sobrecarga de trabalho, causada pela quantidade de pacientes com quadros de gravidade razoável para atender, e a falta de estrutura.
“A superlotação dificulta a própria locomoção. O profissional precisa sair driblando as macas no meio do corredor para atender uma urgência. Além disso, a proximidade excessiva delas aumenta drasticamente o nível de infecção e a facilidade de contaminação de um paciente para o outro”, pontua.
Ludmila também confirma a falta de fiscalização relatada pelo paciente, destacando que o consumo de entorpecentes em escadarias e nos banheiros já foi verificado. Além disso, ela relata falta de segurança. “Acontece o consumo de drogas dentro do hospital e o próprio profissional fica inseguro para agir, porque muitas vezes são pacientes violentos e não há segurança em todos os setores”, diz ela.
Resposta do HGV
Em nota, a direção do Hospital Getúlio Vargas informou que os pacientes internados na unidade de saúde “recebem acompanhamento multiprofissional durante todo o período de permanência hospitalar, com avaliações e condutas registradas em prontuário”. Segundo o HGV, a unidade adota protocolos de segurança assistencial e controle de infecções, seguindo as normas sanitárias vigentes.
De acordo com o hospital, em casos de suspeita ou confirmação de doenças respiratórias, os pacientes são encaminhados à área específica para isolamento respiratório, destinada aos casos que demandam precauções especiais. “A definição do local de permanência segue critérios assistenciais estabelecidos pelas equipes de saúde, de acordo com a avaliação clínica de cada caso”, diz o texto.
“O HGV ressalta, ainda, que a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) segue realizando a contratação de profissionais por meio de processo seletivo, com o objetivo de fortalecer as equipes assistenciais. Enquanto o processo é concluído, eventuais necessidades operacionais são supridas por meio de plantões extraordinários, garantindo a continuidade da assistência e o pleno funcionamento dos serviços prestados à população”, finaliza a direção.