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Vida Urbana
Entrevista

Recuperação de mangues pode diminuir incidentes com tubarões no Grande Recife, diz pesquisadora

Em entrevista ao Diario, a cientista Fernanda Lana cobrou direcionamento de recursos de compensação ambiental para áreas de manguezais, onde os tubarões e suas presas se reproduzem

Marília Parente

Publicado: 08/06/2026 às 12:15

Tubarão-tigre já esteve envolvido em incidentes no estado de Pernambuco/Foto: Karol Rodrigues/DP Foto

Tubarão-tigre já esteve envolvido em incidentes no estado de Pernambuco (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)

Monitoramento contínuo e recuperação ambiental são o caminho para reduzir os incidentes envolvendo tubarões no Grande Recife. Foi o que defendeu a diretora-presidente do Instituto PROSHARK, Fernanda Lana, que também é mestre e doutora em Recursos Pesqueiros e Aquicultura pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em entrevista ao Diario de Pernambuco.

Segundo a pesquisadora, a interrupção do monitoramento científico impede que Pernambuco compreenda a dinâmica atual das espécies na costa e formule políticas públicas baseadas em evidências. O trabalho da UFRPE, iniciado no início da década de 1990, foi descontinuado em 2015, por falta de recursos públicos, e será retomado agora, após a universidade vencer um edital para financiamento do trabalho por dois anos.

Na entrevista, Lana também critica propostas de extermínio dos animais, destacou a importância de compreender o comportamento deles e do investimento na recuperação dos ecossistemas costeiros, especialmente dos manguezais historicamente impactados por expansões urbanas e portuárias. “Com maior disponibilidade de alimento, áreas recuperadas, a interação certamente irá diminuir. Pode não acabar, mas vai diminuir”, afirmou.

Confira a entrevista na íntegra:

DP: Existe um imaginário muito forte em Pernambuco de que os tubarões enxergam mal e, por isso, atacam seres humanos ao confundi-los com as presas. Essa ideia procede?

Não procede. O que que acontece? Os tubarões têm quase seis sentidos ali, muito bem desenvolvidos. São animais extremamente adaptados, tanto que estão na natureza há 400 milhões de anos.

Obviamente que, numa água turva como a do Recife, a visão não é o sentido que eles mais usam. A visão dos tubarões não é ruim, mas fica limitada pela turbidez da água.

DP: Os incidentes em Pernambuco envolvem duas espécies: tubarão-tigre e cabeça-chata. Quais as diferenças entre esses dois tipos tubarões? E o que precisamos saber sobre esses moradores de nossa costa?

Então, por exemplo, um tubarão desses, o tigre, né? Agora falando sobre o tigre. O tigre é um animal que chega a ter mais ou menos uns cinco metros. Esse tubarão é mais robusto, é maior mesmo de tamanho. Ele tem uma mordida tão forte quanto a do cabeça-chata, inclusive come tartarugas e é capaz de romper o casco desses animais.

Normalmente essas espécies fazem uma mordida que a gente chama de exploratória, isto é, tentando entender do que se trata o objeto. Os tubarões não têm mãos e utilizam esse recurso para compreender a presa. 

DP: E como essas espécies normalmente se comportam ao fazer esse contato através da mordida?

Elas têm comportamentos diferentes. A própria questão da testosterona no cabeça-chata faz com que a gente observe que ele morde mais vezes e acaba rasgando mais as coisas. O tigre pode até fazer mais mordidas, mas geralmente ele faz uma mordida mais certeira, embora tenha uma mordida tão forte quanto a do cabeça-chata. Como já dissemos, está acostumado a romper cascos de tartarugas para se alimentar.

No caso da mordida registrada na Praia de Boa Viagem [que vitimou a estudante de direito Marcela Vitória de Lima Santos, de 19 anos], o tubarão tigre deu apenas uma mordida, o que, para ele, é um processo normal que ele já faz para explorar. São os comportamentos normais dessas espécies.

DP: Após os dois incidentes registrados nesta semana, o deputado federal Luciano Bivar (MDB-PE) publicou um artigo defendendo o extermínio de tubarões no Grande Recife. O que aconteceria se fosse possível eliminar esses animais de nosso ecossistema marinho?

Se fosse possível, exterminar os tubarões não resolveria o problema. Retirá-los do mar agravaria o desequilíbrio ambiental causado pelo homem e, talvez, o problema dos ataques até piorasse. O tubarão é o que a gente chama de topo de cadeia e, por esse motivo, ele contribui para o controle da população de, por exemplo, os peixes que ele come, mas esses peixes também se alimentam de outros organismos, como crustáceos e moluscos. Com o aumento da predação, essas populações diminuem. Ao mesmo tempo, espécies que eram controladas por esses organismos podem crescer demais. Isso gera um desequilíbrio em toda a cadeia alimentar.

O resultado é um ambiente completamente desorganizado, com aumento de algumas espécies, desaparecimento de outras e mudanças que podem levar até à migração de animais em busca de condições melhores. E isso pode levar anos para se reorganizar.

Além disso, ainda estamos estudando se esses animais são residentes da região ou se fazem parte de populações que circulam por diferentes áreas do oceano. Hoje, existem pesquisas tentando entender justamente essa conectividade. Estamos investigando se os tubarões encontrados no Recife são os mesmos registrados em outras regiões do Brasil ou até em locais como África do Sul, Austrália, Flórida e Bahamas.

Se os animais não forem residentes, outros indivíduos continuarão chegando. Nesse cenário, seria preciso continuar matando tubarões indefinidamente, o que ampliaria ainda mais o problema ambiental.
E mesmo que existam populações residentes, eliminá-las significaria repetir o mesmo erro que já cometemos antes: degradar ainda mais um ambiente que já sofreu inúmeras intervenções humanas.

DP: Diante dos incidentes registrados, o Recife deveria proibir o banho de mar?

Não é uma discussão simples. A questão da proibição do banho é muito delicada porque o ser humano quer usufruir completamente daquela área e, muitas vezes, achamos que ela é nossa. Mas precisamos lembrar que os tubarões vivem ali. Aquela é a casa deles. Eles respiram debaixo d’água. Nós só conseguimos permanecer ali usando equipamentos e por um período limitado. A gente usufrui do mar, mas não mora nele.

É importante entender que fazemos parte desse ambiente. Muitas vezes os pesquisadores são criticados porque parecem defender apenas os tubarões, mas não é isso. A gente também está defendendo a vida humana. Se existe uma situação de interação negativa acontecendo, ela precisa ser levada a sério.

O Recife convive com registros de incidentes há muito tempo. Existem relatos históricos desde o século XIX. E, principalmente nas saídas dos rios e áreas próximas aos manguezais, a presença de tubarões sempre existiu. Muitas vezes o que as pessoas veem na orla não corresponde à quantidade real de animais que existem na região. O que precisamos discutir são medidas efetivas de convivência e prevenção. Mas é importante entender que os tubarões não surgiram agora naquele ambiente.

DP: Então quais providências devem ser tomadas para enfrentar os ataques? Há algo que possa ser feito para reduzir a quantidade de incidentes?

A principal iniciativa que precisa acontecer no Recife é a recuperação ambiental. É reparar os danos causados por décadas de aterramento de manguezais e entender que esses animais sempre estiveram na região. Eles não têm simplesmente como sair dali. Retirá-los pode gerar um desequilíbrio ainda maior.
O desequilíbrio já foi feito pelo ser humano. Então o que cabe agora fazer é, de fato, a reparação sobre esse dano todo que aconteceu com o aterramento dos manguezais, entender que existe uma situação em que esses animais estão na orla, sim, e sempre estiveram, e que eles não têm como simplesmente sair daí.

A gente tem que pensar em soluções. A educação ambiental é importante, mas tudo isso demanda recursos. Talvez esses recursos possam ser empregados também em áreas de recuperação ambiental.

É preciso reparar os danos causados ao longo dos anos, especialmente com os aterramentos de manguezais, entender que esses animais sempre existiram na região e que a solução não é retirar os tubarões, porque isso geraria ainda mais desequilíbrio. Com maior disponibilidade de alimento, áreas recuperadas, a interação entre tubarões e seres humanos certamente irá diminuir. Pode não acabar, mas vai diminuir.

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