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Pernambuco tem terceira maior taxa de homicídios do Brasil, aponta Atlas da Violência

Atlas da Violência 2026 mostra Pernambuco acima da média nacional em homicídios e violência contra mulheres

Adelmo Lucena

Publicado: 26/05/2026 às 20:12

Brasil registrou oficialmente 42.590 homicídios em 2024, o menor patamar da série histórica recente/Foto: Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil

Brasil registrou oficialmente 42.590 homicídios em 2024, o menor patamar da série histórica recente (Foto: Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil)

Pernambuco é o terceiro estado com o pior indicador de violência letal do país e as cidades do Cabo de Santo Agostinho e São Lourenço da Mata estão no ranking das 20 cidades mais violentas do Brasil. Os dados fazem parte do levantamento feito pelo Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O estado alcançou índice de 37,3 homicídios por 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional, que ficou em 20,1,ficando atrás apenas do Amapá e da Bahia. Em números absolutos, foram 3.534 homicídios em 2024.

O Cabo de Santo Agostinho e São Lourenço da Mata aparecem, respectivamente, na 14ª e 16ª posições entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes com maiores taxas de homicídio.

Enquanto o Cabo apresentou taxa de 59,9 mortes por 100 mil habitantes, São Lourenço da Mata registrou 56,9. O Recife também aparece em posição de destaque negativo, com taxa de 45,5 homicídios por 100 mil habitantes, sendo a quarta capital mais violenta do país.

Segundo o estudo, o Brasil registrou oficialmente 42.590 homicídios em 2024, o menor patamar da série histórica recente, mostrando uma trajetória de queda iniciada em 2018. Ainda assim, o estudo pontua que a redução nacional precisa ser analisada com cautela devido ao aumento das chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), categoria que pode esconder homicídios não identificados oficialmente.

Homicídios

Pernambuco registrou 3.534 homicídios em 2024, redução de 4,4% em relação a 2023, quando houve 3.697 mortes. Apesar da queda, o volume permanece acima do registrado há dez anos. Em 2014, Pernambuco contabilizou 3.358 homicídios, o que significa aumento de 5,2% no período analisado pelo Atlas.

Em 2014, o estado tinha taxa de homicídios de 36,9 mortes por 100 mil habitantes. Em 2024, o índice subiu para 37,3. No mesmo intervalo, o Brasil reduziu a taxa nacional de 30,2 para 20,1 homicídios por 100 mil habitantes, uma queda de 33,4%.

O relatório destaca que a distribuição da violência segue desigual no país, com concentração dos maiores índices nas regiões Norte e Nordeste. Além de Pernambuco, aparecem entre os estados mais violentos Amapá (45,7), Bahia (40,9), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3). Já os menores índices foram registrados em São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1) e Distrito Federal (10,3).

Homicídios ocultos

O Atlas da Violência também chama atenção para os chamados “homicídios ocultos”, que são mortes violentas inicialmente classificadas sem definição clara da causa e posteriormente estimadas pelos pesquisadores como assassinatos.

Segundo o documento, o Brasil registrou 49.673 homicídios estimados em 2024, número superior aos 42.590 homicídios oficialmente registrados. A diferença ocorre justamente pela inclusão das mortes violentas com causa indeterminada que podem ocultar crimes letais.

Em Pernambuco, o número estimado de homicídios chegou a 3.658 em 2024. O dado coloca o estado entre os cinco com maiores taxas estimadas de violência letal do país. Nesse recorte, Pernambuco alcançou taxa de 38,6 homicídios por 100 mil habitantes, novamente muito acima da média nacional, de 23,4.

A pesquisa explica que os homicídios ocultos não significam necessariamente manipulação de dados, mas refletem falhas na identificação da motivação das mortes violentas e dificuldades no compartilhamento de informações entre as áreas de saúde e segurança pública.

O Atlas aponta que o Brasil registrou aumento expressivo desse tipo de ocorrência. Em 2024, os homicídios ocultos cresceram 88,6% no país, passando de 3.755 para 7.083 casos.

Juventude segue como principal vítima

A violência contra jovens continua sendo um dos principais retratos da letalidade no Brasil e em Pernambuco. O levantamento mostra que os homicídios seguem atingindo majoritariamente pessoas entre 15 e 29 anos.

Embora o estudo destaque redução gradual das taxas nacionais de homicídios juvenis nos últimos anos, Pernambuco continua entre os estados com números elevados de assassinatos nessa faixa etária. O Atlas destaca que a juventude negra permanece como principal vítima da violência letal no país.

A publicação aponta ainda que o cenário brasileiro é marcado por forte desigualdade racial. Pernambuco aparece com uma das maiores taxas de homicídios de pessoas negras do país, com 47,6 mortes por 100 mil habitantes negros, atrás apenas do Amapá e de Alagoas.

Violência contra mulheres

O relatório também chama atenção para o avanço da violência contra mulheres, onde Pernambuco aparece entre os estados com maiores taxas.

De acordo com o Atlas, o estado registrou taxa de 5,4 homicídios de mulheres por 100 mil habitantes, acima da média nacional. Apenas Roraima, Rondônia e Ceará apresentaram índices superiores ao pernambucano.

O estudo afirma que os feminicídios e outras formas de violência de gênero permanecem em patamar “historicamente inaceitável” no Brasil e relaciona o cenário ao fortalecimento de discursos misóginos e ao crescimento da violência sexual no ambiente virtual e presencial.

Segundo os pesquisadores, apesar da redução geral dos homicídios no país, a violência de gênero não acompanhou o mesmo ritmo de queda. O relatório também alerta para o aumento da sensação de insegurança da população brasileira, mesmo diante da diminuição das taxas oficiais de assassinato.

Crime organizado e sensação de insegurança

Na análise de conjuntura, o Atlas atribui parte da permanência da violência em estados do Nordeste à reorganização das facções criminosas e à expansão territorial do crime organizado.

O relatório afirma que houve mudança no modelo de atuação dessas organizações, que passaram a atuar em diferentes mercados ilegais e também em setores formais da economia. Os pesquisadores destacam ainda o crescimento dos crimes virtuais e dos estelionatos digitais, que contribuíram para ampliar a sensação de insegurança da população brasileira.

Apesar disso, o documento ressalta que o Brasil atingiu em 2024 o menor índice de homicídios da série histórica recente. Os autores também defendem a necessidade de políticas públicas integradas, prevenção social da violência e fortalecimento da inteligência policial para conter o avanço das organizações criminosas e reduzir a desigualdade regional da violência letal.

O que diz o governo

Em nota, a Secretaria de Defesa Social (SDS) afirmou que Pernambuco vem registrando quedas consecutivas nos índices de Mortes Violentas Intencionais (MVIs) por meio das ações do programa Juntos pela Segurança. Segundo o governo estadual, 2025 terminou com taxa de 32,9 mortes por 100 mil habitantes, redução de 9,3% em relação a 2024.

A pasta destacou ainda que, entre janeiro e abril de 2026, houve queda de 15,1% nas MVIs em comparação com o mesmo período do ano passado. A SDS também ressaltou que os dados do Atlas da Violência utilizam metodologia baseada em informações do DATASUS, o que gera divergências em relação aos números oficiais do Estado.

De acordo com a secretaria, Pernambuco registrou oficialmente 3.464 MVIs em 2024, enquanto o Atlas aponta 3.534 homicídios. O governo informou ainda que segue ampliando investimentos em tecnologia, inteligência, infraestrutura e reforço operacional para reduzir os índices de violência.

O que diz a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho

A Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho afirmou que recebeu com preocupação os dados do Atlas da Violência 2026, mas destacou que o município caiu da 5ª para a 14ª posição entre as cidades mais violentas do país. A gestão municipal avaliou que o resultado indica efeitos positivos das ações desenvolvidas em parceria com as forças de segurança, embora reconheça que a situação ainda é grave.

A prefeitura também cobrou maior atuação do governo de Pernambuco na área da segurança pública e informou que seguirá investindo em prevenção, iluminação, videomonitoramento e ordenamento urbano para tentar reduzir a criminalidade.

O que diz a Prefeitura de São Lourenço da Mata

O Diario de Pernambuco também entrou em contato com a Prefeitura de São Lourenço da Mata e aguarda retorno.

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