Palco da cena cultural alternativa do Recife, Rua da Moeda segue esquecida
Antigo reduto do efevercente Maguebeat, a Rua da Moeda vive hoje um cenário de abandono e insegurança. A situação, segundo empreendedores locais, é comum a toda a parte Sul do Bairro do Recife
Publicado: 30/08/2025 às 08:00

A Rua da Moeda, no Bairro do Recife, ficou conhecida como um reduto da boemia recifense. (Leandro de Santana/Arquivo DP)
Imóveis abandonados, paredes pichadas e bares vazios. O cenário da Rua da Moeda hoje preocupa trabalhadores e comerciantes que ainda atuam no local. Quase todos chegaram ao endereço antes da pandemia, atraídos pela tradição cultural do endereço, que já foi reduto da cena Manguebeat. Porém, nos últimos anos estão assistindo a um declínio progressivo no movimento da via.
Comerciantes ouvidos pela reportagem do Diario relatam que o endereço caiu no esquecimento, especialmente após os arrastões que aconteceram no local, no final de 2021. Logo após, eles contam que a segurança no local melhorou, mas o público não voltou.
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“Acho que ficaram com medo, mas não é perigoso assim como falam”, comenta João Ferreira, o Seu João, dono do fiteiro e bar Recanto da Moeda há 26 anos. Ele lembra com saudade do início dos anos 2000, quando a rua era movimentada todos os dias por projetos com bandas locais.
A gerente da padaria Brotfabrik, Verônica Luzia, trabalha no local há 25 anos e acredita que o problema não está na Moeda em si, mas na parte sul do Bairro do Recife como um todo. “Antigamente, a gente fechava às 22h, era muito movimentado. O tempo foi passando e a Moeda foi ficando esquecida. Hoje, fico até as 18h, porque alguns clientes falaram conosco sobre a violência no bairro, especificamente no nosso lado do Recife Antigo”, comenta.
“Um ponto importante também é que alguns ônibus não vêm para cá depois das 18h e fica ruim para os funcionários. Eu mesma vou de Uber, porque não tem condições de andar até o outro ponto, a gente fica apavorada”, completa ela, ao revelar que dois de seus colaboradores foram assaltados nas redondezas nos últimos dois meses.
O mesmo aconteceu com membros da equipe de Carlos Mendonça, gestor da Bunker, um cowork que funciona na rua há seis anos. “Vários funcionários já foram assaltados na Ponte Giratória, tem funcionário que não fica mais aqui”, diz.
UM OBSTÁCULO: PONTE EM OBRAS
“A Ponte está fechada há tanto tempo, então o fluxo de carros já não passa por aqui, empresas fecharam, a livraria (da Jaqueira) já não abre mais na segunda… Vai reduzindo, não tem jeito. Por estar mais vazio, fica esquisito e isso afasta as pessoas”, oberva Carlos.
Para Damiana Batista, proprietária do bar Rota do Marujo, as obras na Ponte, iniciadas em outubro de 2023, isolaram a Rua da Moeda. “Impactou muito, porque fez do nosso lado como se fosse fora do bairro. A gente se sente excluído, todo o acesso fica para a Avenida Rio Branco em diante e aqui fica difícil”, desabafa.
Somado a esse quadro, ela aponta que os investimentos e atividades promovidas pela Prefeitura do Recife se concentram principalmente no trecho da Rio Branco, e a Rua da Moeda não é beneficiada pelas ações. “É como se a Rio Branco fosse o cartão postal do (Recife) Antigo. Além de ser uma ponte para o Marco Zero, você vê as programações de São João, Natal… É tudo focado ali. Diria até que quando rola isso, acaba tirando o que a gente tem aqui, porque tudo que é animação está do lado de lá. Junho é o pior mês para a gente, aqui só serve de estacionamento”, revela.
Verônica tem a mesma percepção. “No Natal, a Rio Branco realmente fica linda, mas nada reflete para a Rua da Moeda. Deveria abranger todo o bairro, pelo menos uma ornamentação para chamar atenção, mas não tivemos nada ano passado, nenhuma iluminação diferente, fiquei espantada com essa situação”, diz.
“A impressão que tenho é que eles não querem mais essa rua funcionando”, lamenta Seu João. De acordo com ele, o período entre outubro e dezembro ainda é bom, principalmente por conta de iniciativas independentes de grupos, como os ensaios semanais do Boi Marinho, mas depois, mesmo na época de pré-carnaval, já não há mais a animação de outrora.
Buscando resgatar a tradição cultural da rua, Damiana adianta que está criando um projeto, junto aos proprietários de bares vizinhos, para promover atividades no local. A ideia principal é que o projeto apresente artistas independentes da cena local e, quando estiver pronto, será levado à Prefeitura do Recife em busca de apoio.
HOME OFFICE
A adoção do trabalho remoto por muitas pessoas que circulavam pelo Recife Antigo, durante o dia, também impacta especialmente os empreendimentos da Rua da Moeda que funcionam em horário comercial. “Isso tem reduzido o número de pessoas aqui. As pessoas tentam não vir, porque além da violência, muita gente ocupa os imóveis vazios e o trânsito é uma das principais queixas”, avalia Carlos, da Bunker.
Ele considera que empreendimentos interessantes precisam ocupar o local para trazer mais vida para a rua. Para Carlos, a falta de iniciativas no local deixa os turistas que visitam a via sem alternativas durante o dia. “É uma rua importante, que se conecta ao Paço Alfândega, a Igreja da Madre de Deus e ao Chanteclair. Às vezes os turistas vêm aqui e ela está dominada por flanelinhas”, conclui.
PREFEITURA DO RECIFE RESPONDE
Procurada pela redação do Diario, a Prefeitura do Recife enviou uma nota informando que promove, através do Gabinete de Centro, ações integradas envolvendo diferentes órgãos municipais para melhorar o Bairro do Recife, com medidas de manutenção, ordenamento urbano, mobilidade e sinalização. Em relação à segurança no local, a gestão municipal diz que a Guarda Civil Municipal do Recife mantém monitoramento 24h nos acessos à Ponte Giratória, além de reforço efetivo no perímetro, com rondas a pé e em viaturas.
Sobre o ritmo das obras na Ponte Giratória, a Prefeitura afirma que segue avançando na recuperação estrutural, com previsão de término dos serviços para 23 de março de 2026. “Uma obra complexa que é feita dentro da própria estrutura da ponte”, diz o texto.
O pronunciamento também diz que a Rua da Moeda contou com intervenções de urbanismo tático, com a renovação da pintura e a instalação de novos mobiliários de concreto em substituição aos antigos balizadores.
No que se refere à promoção de atividades no local, a Prefeitura diz que a via já contou com 27 eventos neste ano, sendo 21 deles promovidos pela gestão municipal. O texto ainda alega que a Rua da Moeda recebe um palco dedicado ao samba, durante o Carnaval e, através do Programa Recentro, o endereço foi escolhido, no São João, como ponto de partida para a Caminhada do Forró.

