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Opinião
Professor Frei Tito

Jacques Ribemboim
Diretor da Synagoga Israelita do Recife

Publicado em: 01/04/2020 03:00 Atualizado em: 01/04/2020 09:15

Ele partiu em meio à crise da Covid-19, nem pudemos lhe dar um último adeus. Aos setenta e nove anos, faleceu em casa de amigos, no Litoral Sul, recuperando-se de uma longa doença coronariana. Seus últimos anos foram de recolhimento na igrejinha de Piedade. Antes, esteve morando no anexo da Igreja do Espinheiro, onde eu costumava visitá-lo para conversar sobre política, religião e história de Pernambuco. Eu, judeu, ele, cristão, só discordávamos quanto à política partidária. Eu, tentando convencê-lo a vir para o Partido Verde; ele, fiel ao Partido dos Trabalhadores e ao seu querido presidente Lula. Mas sua admiração maior era mesmo por seu irmão carmelita, Frei Caneca, sobre quem escreveu seu último livro (Frei Caneca: vida e escritos, Editora CEPE, 2017).

Além da atividade sacerdotal, Frei Bartolomeu (Tito) Figueiroa de Medeiros era graduado em pedagogia, com doutorado em antropologia pelo Museu Nacional e pós-doutorado na Universidade de Brasília. Foi professor convidado da Universidade Urbana de Roma e professor concursado da UFPE, onde se dedicava ao estudo das religiões de matriz africana, com todo afinco e honestidade que lhe marcaram a existência. Quando se referia à festa de Nossa Senhora do Carmo, sempre atentava ao sincretismo religioso, ao louvor a Oxum, e à festa profana que acontece todos os anos no Pátio do Carmo.

Há alguns anos, a cúria o indicou para o grupo de diálogo inter-religioso, onde marcava presença com erudição, serenidade e elegância. A depender de Frei Tito, Pernambuco não adentraria em um novo século guardando preconceitos do passado. Nesse sentido, esteve na mesa de lançamento do Manual de Hebraico Bíblico, de Vicente Massip, ocorrido no Colégio Israelita, em 2009, e, mais recentemente, no culto inter-religioso em defesa do meio ambiente, na Sinagoga Tzur Israel.

Frei Tito também nos ajudou em um projeto cultural da Fundarpe, concedendo uma longa entrevista gravada em vídeo para o documentário acerca do patrimônio imaterial dos bairros de Santo Antônio e São José, no Recife. Conhecia como ninguém a história das igrejas, em particular a da Basílica do Carmo. Sabia tudo de cabeça e de coeur, de coração, como dizem os franceses.

Nos eventos do “Treze de Janeiro”, que assinala a execução do Frei Caneca, era ele quem realizava o discurso principal, junto ao Forte das Cinco Pontas, com o hasteamento da bandeira e o hino estadual, todos parados para escutar sua oratória solene: o prefeito, a maçonaria, os membros do Instituto Arqueológico, o público em geral.

Por muitos anos, Frei Tito procurou indícios de onde estaria o corpo do Frei Caneca, recolhido pelos padres carmelitas e escondido em lugar secreto. Imaginava que estaria em alguma das paredes do convento, anexo à Basílica. Não conseguiu descobrir em vida e não precisa mais procurar. Estão juntos, agora, Frei Caneca e Frei Tito, na eternidade e nos corações pernambucanos.

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