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Notícia de Ciência e Saúde
Estudo Pesquisa diz que vírus da zika pode ajudar a tratar câncer no cérebro Os especialistas acreditam que o mesmo mecanismo capaz de causar a microcefalia em fetos pode ser direcionado para os tumores

Por: AE

Publicado em: 05/09/2017 11:23 Atualizado em: 05/09/2017 11:53

Foto: Heitor Cunha/DP (Foto: Heitor Cunha/DP)
Foto: Heitor Cunha/DP
O vírus da zika é capaz de matar células-tronco de glioblastoma, um tipo mortal de câncer no cérebro, de acordo com um novo estudo realizado por cientistas americanos. As células-tronco dos tumores são especialmente resistentes aos tratamentos convencionais contra o câncer.

De acordo com os autores da pesquisa, publicada nesta terça-feira, 5, na revista científica "The Journal of Experimental Medicine", a descoberta abre caminho para que um dia o zika seja utilizado como um tratamento complementar para o glioblastoma.

Sabendo que o zika tem preferência por destruir células-tronco do cérebro de bebês em desenvolvimento - causando malformações como a microcefalia -, os pesquisadores decidiram investigar se essa característica do vírus poderia ser dirigida contra as células de glioblastoma, que é o tipo mais comum de tumor cerebral.

"Nós mostramos que o vírus da zika pode matar o tipo de célula de glioblastoma que tende a ser resistente aos tratamentos atuais, levando a maior parte dos pacientes à morte", disse um dos autores do estudo, Michael Diamond, da Universidade Washington, em St. Louis.

Atualmente o tratamento padrão para o glioblastoma é extremamente agressivo, incluindo cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Ainda assim, a maior parte dos tumores voltam a aparecer dentro de seis meses.

De acordo com os autores do estudo, as chamadas células-tronco do glioblastoma frequentemente sobrevivem ao agressivo tratamento e continuam se dividindo, produzindo novas células tumorais que substituem aquelas que foram mortas pelas cirurgias e drogas. 

"É frustrante tratar um paciente de forma tão agressiva, apenas para vermos seu tumor voltar a aparecer alguns meses depois. Nós imaginamos que talvez a natureza pudesse fornecer uma arma para atacarmos as células que são provavelmente as maiores responsáveis por esse ressurgimento", disse outro dos autores do estudo, Milan Chheda, também da Universidade Washington.

Os cientistas notaram que as células-tronco do glioblastoma, com sua capacidade quase ilimitada de produzir novas células, lembram as células neuroprogenitoras, que são responsáveis por gerar células novas para o cérebro em desenvolvimento. As células neuroprogenitoras são os alvos preferidos do vírus da zika.

Em colaboração com pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego, os cientistas da Universidade de Washington testaram se o vírus poderia matar células-tronco em glioblastomas removidos de pacientes em biópsia para realização do diagnóstico.

Os cientistas infectaram os tumores com o vírus da zika, que se espalhou pelos tumores, infectando e matando as células-tronco de câncer, evitando claramente as demais células tumorais.

A descoberta sugere que a infecção por zika e um tratamento com quimioterapia e radioterapia podem ter efeitos complementares. Os tratamentos padrão matam as células tumorais em massa, mas frequentemente deixam intactas as céulas-tronco, que acabam regenerando o tumor. 

O vírus da zika, por sua vez, ataca as células-tronco, mas ignora a maior parte do tumor. "Imaginamos que um dia o zika vá ser utilizado em combinação com as terapias já existentes para erradicar o tumor completamente", disse Chheda.

Para descobrir se o vírus poderia ajudar a tratar o câncer em um animal vivo, os cientistas injetaram o vírus da zika nos cérebros de 18 camundongos e uma solução de água salgada (um placebo) no cérebro de outros 15 animais. 

Duas semanas após a injeção, os tumores ficaram consideravelmente menores nos camundongos tratados com zika, que também sobreviveram bem mais tempo que os animais que receberam o placebo.

Injeção no cérebro
Se o zika fosse utilizado em humanos, o vírus precisaria ser injetado no cérebro, provavelmente durante a cirurgia de remoção do tumor primário. Se o vírus fosse introduzido em outra parte do corpo, o sistema imunológico da pessoa o destruiria antes que ele chegasse ao cérebro.

De acordo com os autores do estudo, a ideia de injetar no cérebro de uma pessoa um vírus conhecido por causar danos cerebrais pode soar alarmante, mas o zika poderia ser seguro para uso em adultos, porque seus alvos principais - as células neuroprogenitoras - são raras no cérebro já desenvolvido.

O cérebro do feto, por outro lado, é repleto dessas células, o que explica, em parte, por que a infecção por zika antes do nascimento produz graves danos cerebrais - enquanto a infecção natural na idade adulta causa sintomas mais amenos.





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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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