A erupção do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, ocorrida em 15 de janeiro de 2022 nas proximidades da ilha de Tonga, no Pacífico, lançou à atmosfera um volume de água como os satélites nunca haviam registrado. A explosão, porém, é apenas o capítulo mais recente de uma história que remonta a séculos — e tem em o monte Tambora seu exemplo mais dramático.
Diferente das erupções típicas que resfriam o planeta com cinzas bloqueando o Sol, esses eventos extremos deixam marcas climáticas que perpassam gerações. O Tambora oferece a lição histórica para entender como vulcões podem alterar o clima global de forma duradoura e inesperada.
Um episódio que mudou o clima por um ano inteiro
Na Indonésia, em 1815, a erupção do monte Tambora foi tão violenta que a montanha desabou sobre si mesma, reduzindo sua altitude em mais de mil metros e formando uma cratera de seis quilômetros de profundidade. A violência liberou aproximadamente 60 quilômetros cúbicos de gases, poeira e rochas para a atmosfera — escala monumental que poucos vulcões atingem.
O custo humano foi imediato e devastador: cerca de dez mil pessoas morreram na erupção direta. Mas a verdadeira tragédia se desenrolaria nos anos seguintes, quando as consequências atmosféricas se espalharam pelo planeta inteiro, afetando colheitas e temperaturas em continentes distantes.
Como as cinzas vulcânicas modificaram o clima
O Tambora funcionou como um bloqueador solar natural. O material expelido se espalhou pela atmosfera e passou a barrar boa parte da luz solar, fazendo com que menos calor alcançasse o solo. Esse fenômeno recebeu o nome de “inverno vulcânico”.
O ano de 1816 ficou conhecido como o “ano sem verão” justamente porque temperaturas globais caíram o suficiente para provocar geadas até em meses quentes, safras fracassadas e fome em várias regiões.
O efeito não foi imediato — levou alguns meses para as partículas se espalharem pela estratosfera e impactar o clima em escala planetária, mas permaneceu detectável durante vários anos.
Do Tambora ao Hunga Tonga-Hunga ha’apai
Mais de dois séculos depois, quando o vulcão submarino explodir em 2022, os cientistas da Nasa registraram um fenômeno oposto. Em vez de cinzas que resfriam, houve quantidade recorde de vapor d’água na estratosfera — entre 12 e 53 quilômetros acima da superfície.
O estudo publicado na Geophysical Research Letters apontou 146 milhões de toneladas de água lançadas naquela camada atmosférica.
Essa quantidade equivalia a encher 58 mil piscinas olímpicas — correspondendo a 10% de toda a água já presente naquela altitude. Luis Millán, autor do estudo do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, informou em comunicado que equipes precisaram inspecionar cuidadosamente as medidas para garantir sua confiabilidade porque nunca tinham observado registros assim antes.
O vapor funciona como manta térmica, capturando o calor do Sol e retendo-o, o que produz aquecimento em vez de esfriamento. Esse excesso de umidade tende a ficar na estratosfera durante anos, e nesse período pode reagir quimicamente de maneira a desgastar a camada de ozônio — um efeito, no entanto, passageiro, que some à medida que o vapor em excesso vai se dissipando.
Consequências que variam segundo o tipo de erupção
Dois eventos vulcânicos, duas respostas climáticas completamente diferentes, e o Tambora trouxe resfriamento global e crises agrícolas. O Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, por sua vez, contribuiu para aquecimento, embora de escala menor e duração temporária. A diferença estava na composição química que cada vulcão lançou e na altitude em que os materiais se dispersaram.
Enquanto o aquecimento do vapor d’água pode debilitar a camada de ozônio através de reações químicas, o efeito dissipa-se na medida em que o excedente de água se reduz naturalmente. Isoladamente, nenhuma das duas erupções tem força para agravar o aquecimento global provocado pela ação humana — mas ambas mostram como fenômenos naturais já influenciaram o clima no passado e ainda ajudam a entender a atmosfera hoje.










