Tecnologia dos automóveis chineses está muito mais perto do que se pode imaginar
Fabricantes de automóveis ocidentais estão recorrendo aos chineses para avançar na eletrificação, no sentido inverso à década de 1980, quando a China obrigava as grandes marcas a se associarem a grupos locais para forçar a transferência de tecnologia
Publicado: 19/10/2026 às 09:36
Chevrolet Spark será montado no Brasil (GM Chevrolet/Divulgação)
Na última semana, circulou a notícia de que a JAC Motors, a Huawei Technologies e a Stellantis estariam em tratativas para recuperar a lendária marca italiana de veículos esportivos Maserati, que pertence ao conglomerado automotivo europeu. Em meio aos rumores, a JAC confirmou as conversas e a Stellantis não negou e afirmou que os planos para a marca serão apresentados em dezembro.
O episódio escancara uma nova era para as marcas chinesas de automóveis, que até algum tempo atrás eram vistas com desconfiança. Esse atual protagonismo da indústria automobilística chinesa é o que se pode chamar de exemplo da aplicação dos ensinamentos de Sun Tzu, autor do livro "A Arte da Guerra”, especificamente o princípio do “vencer sem lutar".
As controversas relações entre fabricantes de automóveis globais e chinesas começaram na década de 1980, quando as gigantes automotivas aceitaram formar joint ventures com grupos estatais da China para ter acesso ao mercado local. Foi a largada para a transferência de tecnologia, com o surgimento de JVs como Baic Jeep, Saic Volkswagen, Saic GM, Dongfeng Peugeot-Citroen, foram algumas das parcerias nascidas no período, a maioria ainda em plena atividade. Entre todas elas, a Saic GM é a mais próxima dos brasileiros, dando origem a modelos como o Chevrolet Spark EV e o Chevrolet Captiva EV comercializados por aqui.
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Grupos chineses vão às compras
Em um segundo momento, os grupos chineses foram às compras. No início dos anos 2000, a Saic/Nanjing comprou a britânica MG e a Geely adquiriu, da Ford, o controle integral da Volvo, da LEVC (fabricante dos táxis londrinos), Lotus, Aston Martin, Proton, 10% da Daimler, 25% da Renault do Brasil e na Renault Korea, além de uma joint-venture 50-50 na Smart, marca de veículos compactos em que é sócia da Mercedes. Há ainda rumores de entendimentos entre Geely e Ford, BYD e Ford, Chery e Nissan, Dongfeng e Stellantis, entre outras.
Inversão da transferência de tecnologia
O caso da Maserati, citado na abertura do texto, revela o atual estágio das relações entre as montadoras chinesas e as ocidentais. De acordo com a imprensa italiana, o acordo JAC-Hauwei-Stellantis combinaria o design italiano, a tecnologia da Huawei e os serviços de desenvolvimento de engenharia da JAC como parte de uma estratégia mais ampla de revitalização da Maserati. A JAC e a Huawei já atuam juntas na Maextro, marca de veículos elétricos de luxo criada para competir com a Rolls-Royce, Mercedes-Maybach e Bentley.
Trocando em miúdos, hoje grupos como Volkswagen, Stellantis, Renault, GM, Ford, Toyota e Honda compram dos fabricantes chineses exatamente o que os chineses compraram deles na década de 1980, com a política de joint-venture obrigatória. Para a China, os acordos seguem válidos, uma vez que são a forma mais eficaz de driblar as barreiras tarifárias impostas pelo ocidente.