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Anne Hathaway e Dakota Johnson não salvam thriller previsível e monótono ‘Verity’

Adaptação de best-seller escrito por Colleen Hoover é o quinto lançamento com Anne Hathaway em 2026, mas de longe o pior de todos

Por André Guerra

Anne Hathaway interpreta misteriosa escritora que sofre um acidente de carro e fica impossibilitada de concluir sua série de suspenses

Anne Hathaway dominou o calendário cinematográfico de 2026. Além de dois dos maiores sucessos comerciais do ano, “O Diabo Veste Prada 2” e “A Odisseia”, a atriz foi cantora pop em “Mother Mary” (sem previsão de estreia no Brasil) e enfrentou dinossauros em “O Fim da Rua”, produções autorais que falharam em encontrar seu público, mas conquistaram boa parte da crítica especializada. Agora, com o suspense “Verity”, já em cartaz, ela lembra que, mesmo nos melhores momentos, ninguém está livre de escolhas erradas.

Baseado no livro de Colleen Hoover, um dos maiores sucessos editoriais de 2021, o longa narra a história de Lowen (Dakota Johnson), escritora que recebe a proposta de dar continuidade à série de thrillers de sucesso assinada por Verity Crawford (Hathaway), acamada desde um acidente de carro. O acordo pede que ela se mude temporariamente para a mansão onde a poderosa autora vive sob os cuidados de seu marido, Jeremy (Josh Hartnett).

Desenrola-se a partir daí uma trama de mistério dolorosamente novelesca que nunca decide de qual referência quer beber mais. “Garota Exemplar”, com seus flashbacks pouco confiáveis, é uma fonte perceptível desde o livro. Mas, na tela, “Verity” deixa escapar ecos que vão de “Segredos de um Escândalo”, com seu jogo de reflexos entre duas protagonistas envolvidas, até o descompromisso brejeiro de “A Empregada” e seu triângulo amoroso movido a músicas pop e fotografia publicitária.

Como todo suspense de casa isolada, tem-se aqui uma funcionária misteriosa (que, neste caso, simplesmente desaparece do filme sem qualquer explicação) e uma criança com comportamento convenientemente estranho. Além, claro, de um lago que esconde um segredo mais cristalino do que os vidros que cercam a propriedade do rico casal.

É verdade que nada no livro ajuda o roteiro, adaptado aqui por Nick Antosca. As reviravoltas oscilam entre a previsibilidade e a completa inverossimilhança, sobretudo quando mistura percepção e realidade para forçar uma natureza interpretativa por parte do público. Há, a certa altura, uma explicação sobre uma confissão por escrito que consegue ser mais absurda do que a própria escrita da confissão. 

A protagonista é tão mal escrita que todas as suas decisões parecem arbitrariamente escolhidas na hora da cena, o que só é reforçado pela interpretação desanimada de Dakota Johnson. Josh Hartnett, por outro lado, vive a figura clichê do marido sedutor como se estivesse em uma troca de roupa do seu personagem de "Armadilha", de M. Night Shyamalan. E tudo o que o roteiro faz com ele segue precisamente o passo a passo que se espera desde sua primeira aparição — uma sequência constrangedora envolvendo sangue um acidente de carro. 

Diretor de comédias românticas como “Doentes de Amor” e “Uma Ideia de Você”, esse último também com Anne Hathaway, Michael Showalter demonstra completo despreparo no terreno do suspense. A direção de elenco nunca encontra um tom entre a tensão e o humor inerente ao absurdo da história. E os enquadramentos são triviais, avulsos e, às vezes, até meio tortos, resolvidos em uma montagem igualmente sem inspiração e cheia de fusões repetitivas na imagem.

No meio do caos de revelações involuntariamente cômicas e da falta de convicção mínima para lidar de frente com a essência altamente cafona da trama, sobra o comprometimento de Anne Hathaway para transmitir alguma verdade em “Verity”, mas é quase impossível remar contra uma correnteza de disparates.