Com brega no repertório, ópera italiana "Il Campanello" é traduzida para o "recifês" e chega a PE pela 1ª vez
Ópera cômica "Il Campanello" estreia no Recife com adaptação em português e elementos da cultura pernambucana
Quando o italiano Gaetano Donizetti (1797-1848) escreveu a ópera cômica “Il Campanello” (“A Campainha”), em meados do século 19, dificilmente imaginaria que sua obra um dia seria cantada integralmente em português brasileiro. Muito menos que, quase dois séculos depois, seus personagens deixariam a Itália para cair no Carnaval de Olinda ou incorporariam os versos icônicos de “Que Tontos, Que Loucos”, de Kelvis Duran.
É essa versão que será exibida no Recife de forma inédita nesta quinta-feira (3), no Teatro de Santa Isabel, e segue em cartaz até domingo (6), com sessões todas as noites, às 20h, exceto no último dia, quando acontece às 17h. Com ingressos populares a partir de R$ 20, disponíveis pelo Guichê Web, a temporada também terá caráter solidário: a arrecadação será destinada ao Banco de Alimentos do Recife.
A liberdade para alterar elementos da obra original está ligada a uma inquietação que acompanha Matheus Soares, diretor artístico do espetáculo, desde 2023, quando passou a adaptar montagens clássicas em Pernambuco. “Eu sempre penso na ópera como uma forma de aproximar a arte das pessoas. A gente teve o cuidado de traduzir, como eu brinco, não somente para o português, mas para o ‘recifês’. Temos muitas expressões que usamos aqui, como ‘oxente’, ‘oxe’ e ‘vixe’”, destaca ele, que também assina a produção geral ao lado de Yasmin Menezes.
As músicas e os recitativos (trechos falados) foram traduzidos pelo maestro e professor da UFPE Sérgio Dias, responsável também pela direção musical e regência. Para facilitar a compreensão, a montagem terá ainda legendas projetadas em tempo real no alto do palco.
A história de “Il Campanello”, também conhecida como “Il Campanello di Notte” (“A Campainha da Noite”), começa na casa e farmácia de Don Aníbal (Anderson Rodrigues e Matheus Alvarenga, que se revezam no papel), durante a celebração de seu casamento com a jovem Serafina (Anita Ramalho e Virginia Cavalcanti).
Entre os convidados está o coro da ópera, além da Madame Rosa (Monica Muniz), mãe da noiva e interessada na fortuna do genro, e do servo Espiridião (Eudes Naziazeno), que alterna entre ajudar e atrapalhar o patrão.
As expectativas para a noite de núpcias são repetidamente atrapalhadas por Enrico (Luiz Kleber Queiroz e Calebe Faria), primo e ex-namorado de Serafina, ainda apaixonado por ela, que retribui o sentimento. O texto arranca risadas mundo afora ao acompanhar armadilhas criadas para adiar os planos do noivo.
“É uma obra leve, engraçada e divertida, com classificação livre, além de ter uma música muito bonita” , garante Matheus Soares. Toda essa confusão é levada ao palco por cerca de 80 artistas, entre cantores, integrantes do coro e músicos da orquestra, que acompanham as sucessivas tentativas de Enrico.
No início deste ano, Matheus assistiu a uma ópera em Viena, na Áustria, que atualizava a narrativa para os dias atuais, com personagens usando WhatsApp em vez de cartas escritas e figurinos mais modernos.
A experiência reforçou a ideia de transportar histórias clássicas para contextos contemporâneos. “Os figurinos trazem os adereços, as fantasias e as máscaras que fazem parte da nossa festa e que ajudam a colocar a história dentro de um universo mais pernambucano”, conta o diretor.
Dessa forma, a montagem conserva o humor, a estrutura narrativa e o caráter farsesco de “Il Campanello”, assim como sua ligação com a commedia dell’arte. O que muda é a forma de contar essa história, com toda a irreverência e as referências da cultura pernambucana.
“Mantemos os elementos que são essenciais e adaptamos aquilo que precisa ser atualizado, para que a trama continue funcionando e o público possa entender e apreciar a obra, a música e o enredo”, conclui Matheus.
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