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Atração do Porto Musical, pernambucana Paulete Lindacelva faz sucesso ao unir ancestralidade e house music

Neste sábado (5), DJ pernambucana Paulete Lindacelva apresenta novo EP, "Filha de Abya Yala Herdeira de Kemet", no festival Porto Musical

Camila Estephania

Publicado: 02/09/2026 às 07:59

Radicada em São Paulo, Paulete Lindacelva cresceu no bairro da Guabiraba, na Zona Norte do Recife/Rafaelly Godoy/Divulgação

Radicada em São Paulo, Paulete Lindacelva cresceu no bairro da Guabiraba, na Zona Norte do Recife (Rafaelly Godoy/Divulgação)

Depois de cruzar Istambul, do lado europeu ao asiático da cidade, a DJ pernambucana Paulete Lindacelva resolveu traduzir o percurso do seu jeito na música “De Balat ao Bósforo”, em que leva referências da música turca para as pistas eletrônicas de house. O que pode soar distante da sua terra natal, no entanto, integra a tapeçaria sonora do EP “Filha de Abya Yala Herdeira de Kemet”, lançado em maio, sobrepondo musicalidades da Ásia, África e América Latina ligadas à cultura nordestina.

O trabalho foi apresentado em diversas cidades da Europa e chega ao Recife neste sábado (5), dentro da programação de showcases do Porto Musical, onde Paulete deve resgatar, através da música, o senso de pertencimento a diversos lugares do mundo. No caso da Turquia, ela revela que sempre teve curiosidade de conhecer o país por conta de sua história, ligada às origens da religião católica, e também pela mitologia da Linha de Turquia, presente em algumas manifestações religiosas do Norte do Brasil. “Acho que o Brasil, de alguma maneira, passa por esse elo cultural que muitas vezes soa aleatório, mas acredito que a espiritualidade une esses territórios”, explica a DJ ao Diario.

Não é à toa que o título do EP expande sua ancestralidade afro-indígena a Abya Yala, nome utilizado por povos originários para designar o continente americano, e a Kemet, denominação dada ao Egito Antigo pelos súditos do reinado. “Quando se trata de herança afro-diaspórica, as pessoas nunca querem se olhar como herdeiro de escravizado. Mas, o Egito é uma referência para olhar o povo negro como reis e rainhas e para criar uma outra perspectiva de descendência”, observa ela, que busca estreitar a conexão através das melodias árabes de “Dançando Com Hatshepsut”.

Em faixas como “Cúmbia no Bela Vista”, Paulete ressalta um vínculo ainda mais próximo dos recifenses ao destacar as tradicionais noites de música caribenha do Clube Bela Vista, localizado no Alto Santa Terezinha. “Pelo que pesquiso, Pernambuco consome sonoridades latinas vizinhas há pelo menos 50 anos e tem trocas ativas com outros territórios, inclusive fazendo sons que são muito próprios desses lugares”, aponta. Ela atribui essa influência à sua memória afetiva na capital pernambucana, onde cresceu no bairro da Guabiraba, na Zona Norte da cidade.

Vivendo há cerca de oito anos em São Paulo, Paulete lembra que antes de se mudar para a capital paulista atuou em movimentos sociais que a aproximaram de diversas regiões e manifestações culturais populares de Pernambuco. A experiência abriu portas para a produção cultural e início da carreira como DJ no estado, embora não tocasse dance music à princípio, mas sim artistas ligados a gêneros como jazz, blues e afrobeat, dos quais diz ser muito fã. O house só foi incorporado ao seu trabalho quando conheceu a cena eletrônica efervescente de São Paulo.

“Voltar para o Recife agora traz uma sensação de alegria por ter os curadores olhando para o meu trabalho. É muito doido isso, porque eu não via um festival como o Porto Musical com uma relação com a música eletrônica”, comemora. A artista acredita que a cidade ainda sofre com uma escassez de oportunidades para o segmento, mas torce pelo reaquecimento da noite recifense.

Porto Musical começa nesta quinta-feira (3)

Celebrando 20 anos de história como referência na internacionalização e capacitação da música brasileira, o Porto Musical realiza uma edição especial com programação de amanhã até o domingo. O evento reúne artistas, produtores e executivos do mercado nacional e internacional em pontos históricos da cidade, como o Paço do Frevo, a Praça do Arsenal e o Cinema São Luiz. Os showcases e as atividades formativas terão acesso gratuito mediante retirada de ingressos na plataforma Sympla.

Entre os destaques da programação estão a conferência “80 Girassóis de Alceu Valença”, que acontece amanhã, com participação do cantor e compositor pernambucano e exibição no domingo do documentário “Quando A Gente Vira Um”, sobre a banda Mestre Ambrósio, no São Luiz. O palco na Rua do Observatório ainda receberá shows de brega funk, de ritmos tradicionais e da nova MPB, como Juçara Marçal, Mestre Anderson Miguel de MC Soffia.

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