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Expulso na ditadura, padre Vito recebe título de cidadão pernambucano

Na Alepe, o religioso, mandado embora por se recusar a celebrar missas de ação de graças na Semana da Pátria, emocionou-se com a homenagem

Por Guto Moraes

Solenidade de entrega do título de cidadão pernambucano ao Padre Vito Miracapillo pela ALEPE.

Quarenta e seis anos após ser expulso do Brasil pela ditadura militar, o padre italiano Vito Miracapillo, 79 anos, recebeu, nesta segunda-feira (21), o título de cidadão pernambucano. Emocionado, o sacerdote, que na época era pároco de Ribeirão, na Zona da Mata Sul do estado, considerou a homenagem da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) como “leitura crítica do passado de maneira compartilhada”.

A expulsão foi motivada por ele se recusar a celebrar duas missas na Semana da Pátria. “Por vários motivos, entre os quais a não efetiva independência do povo, reduzindo à condição de pedinte e desamparado em seus direitos”, disse em ofício à Prefeitura de Ribeirão, em 1980.
“Daqui partiu o pedido de expulsão”, recordou o religioso sobre o dia em que a mesma Casa Legislativa aprovou uma indicação de investigação, protocolada pelo então deputado estadual Severino Cavalcanti.

Em seu discurso, o padre também relembrou o momento em que tomou conhecimento da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que confirmou sua expulsão, decretada pelo general João Figueiredo com base na Lei do Estrangeiro. Vito deixou o Brasil em 31 de outubro de 1980 e só conseguiu voltar em 1993, mas como turista. Em 2011, ele teve o visto permanente concedido pela então presidente Dilma Rousseff (PT).
“Quando recebi a notícia do veredito, escrevi uma carta ao povo de Ribeirão dizendo que, de hoje em diante, a gente se distancia, mas não se separa”.

“Por 13 anos, quando não pude voltar ao Brasil, centenas de brasileiros e brasileiras, religiosos e leigos, foram me visitar em Andria”, acrescentou.

A concessão do título foi proposta pelo deputado estadual João Paulo. Na cerimônia, o parlamentar citou os nome dos 11 magistrados do Supremo que negaram habeas corpus ao padre e disse que o título é também uma forma de homenagear as vítimas da ditadura.

“O título que essa casa lhe entrega hoje não é apenas uma honraria, é o reconhecimento formal de algo que o povo pernambucano sabe há muito tempo, que o senhor pertence a esta terra e a esta gente. É também um gesto de memória para que a história da ditadura, dos que resistiram e dos que foram perseguidos por defender os pobres, nunca seja esquecida”, disse o deputado.

Vito Miracapillo subiu a rampa do auditório Senador Sérgio Guerra, aplaudido de pé por políticos, religiosos e familiares.

O ex-pároco de Ribeirão recebeu o título ao som de Asa Branca, de Luiz Gonzaga, e foi homenageado pelos corais Vozes de Pernambuco e Vozes da Resistência. Este último da Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) do Morro da Conceição, interpretando o poema “Vito, Vito, Vitória”, de autoria do já falecido padre Reginaldo Veloso - ex-pároco do Morro que chegou a ser preso, justamente, por conta da música.

O sociólogo italiano Fabio Porta, deputado da Itália, destacou a entrega do título como um resgate da memória. “Quem não tem memória, não tem futuro. A democracia e a independência não são valores permanentes e hoje, no mundo, estão ameaçados”, disse ele durante o evento na Assembleia.

Coroinha quando padre Vito liderava a paróquia de Ribeirão, o professor Marton Ferreira dos Santos, 58, relembrou a passagem do religioso pela cidade como “uma revolução”.

“O município começou a ter uma outra visão. O estado e o país começaram a olhar para o nosso lugar. Ribeirão começou essa pequena libertação da Mata Sul, que sempre foi escravizada pela cana-de-açúcar”, afirmou durante a solenidade.