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Padre Vito Miracapillo ganha título de Cidadão Pernambucano 46 anos após ser expulso do país

Título é cedido ao sacerdote italiano pela Assembleia Legislativa Pernambuco, a mesma instituição que o condenou em 1980

Guto Moraes

Publicado: 19/09/2026 às 19:29

Vito Miracapillo recebe o título de cidadão nesta segunda-feira/Foto: Alcione Ferreira

Vito Miracapillo recebe o título de cidadão nesta segunda-feira (Foto: Alcione Ferreira)

Vito Miracapillo foi um dos nomes de grande repercussão no Brasil dos Anos 1980. Em plena Ditadura Militar, o sacerdote italiano, quando então vigário no município de Ribeirão, na Mata Sul de Pernambuco, a cerca de 85 km do Recife, foi declarado “homem raivoso” e expulso do país pelo trabalho pastoral lido à época como “subversivo”. De volta ao país, o religioso recebe nesta segunda-feira (21), às 18h, o título de Cidadão Pernambucano da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

A homenagem, proposta pelo deputado estadual João Paulo Lima (PT), ocorre quase meio século após o italiano ser condenado pela mesma casa legislativa, em setembro de 1980. Naquela ocasião, todos os holofotes se voltavam contra Vito Miracapillo quando ele se recusou a celebrar uma missa na Semana da Pátria, em Palmares, onde estava localizada sua diocese, por ocasião do Dia da Independência do Brasil.

A recusa movimentou os bastidores políticos antes mesmo da data cívica e ganhou ainda novos contornos de rebeldia quando, no dia 7 de setembro, ele disse em seu sermão: “A independência somos todos nós, quando crescemos como povo em liberdade de participação. Quando temos os direitos respeitados. Quando lutamos contra a marginalização, que é a negação do bem comum. Quando podemos escolher com liberdade os nossos governantes.”

O episódio seria impresso nas páginas de jornais de todo o Brasil e rendeu a Miracapillo 286 menções somente no Diario. No dia 10 de setembro, o jornal publicaria em sua primeira página a sentença: “Assembleia condena o padre Vito”. Por 22 votos a favor e 13 contrários, o vigário seria submetido a uma investigação por indicação do deputado estadual Severino Cavalcanti, do então Partido Democrático Social (PDS), atual Progressistas (PP).

“A intenção do deputado é o enquadramento do sacerdote na Lei dos Estrangeiros, com a consequente expulsão do País”, indicou a reportagem. Dentre os contrários, estiveram nomes como os deputados Sérgio Longman e Eduardo Pandolfi, do então PMDB. “Comemorar o que, quando trabalhadores estão comendo ratos, conforme denúncias, e crianças morrem a todo momento de inanição?”, declarou Longman, ao fim da sessão.

Com base no antigo Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/1980), o italiano foi considerado “nocivo” e “indesejável” e deixou o Brasil em 31 de outubro daquele ano, após o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitar um pedido de habeas corpus apresentado em sua defesa. Na época, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se posicionou pela sua permanência, assim como as 20 mil assinaturas foram reunidas pela sua paróquia, em Ribeirão.

Na solenidade desta segunda, participam a cônsul da Itália no Recife, Maria Salamandra; o senador do parlamento italiano Fabio Porta; e representantes da atual paróquia de Padre Vito na Itália. “A homenagem também é um gesto de memória: a história da ditadura, daqueles que resistiram e dos que foram perseguidos por defender pobres. A cidadania pernambucana confirma uma casa que sempre foi do padre Vito”, diz o deputado da Alepe.

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