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Ataque de tubarão: Cemit aguarda estudo para avaliar mudança de placas em área de Piedade

O trecho onde ocorreu o incidente possuía placa alertando para risco de ataques, mas não é proibido para banho; este é o primeiro ataque no local e 24º na orla de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife

Por Cadu Silva

Cemit aguarda estudo para avaliar a mudança das placas de restrição a banho em área onde menino foi atacado por tubarão, em Piedade

O ataque de um tubarão a um menino de 11 anos, na tarde do último domingo, reacendeu o debate sobre uma possível ampliação das áreas com restrição para banho no litoral de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife.

O incidente aconteceu em um trecho da Praia de Piedade que possui placa alertando para o risco de ataques de tubarão e recomendando que os banhistas não entrem no mar, mas que não é proibido para banho. Após o caso, o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) informou que o trecho passará por análises técnicas para que o comitê possa avaliar desde o reforço das ações de educação ambiental até a eventual recomendação de fechamento temporário ou ampliação das restrições já existentes.

Segundo a secretária executiva de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, Denise Alves, a existência da placa significa que o local apresenta fatores de risco já conhecidos pelos especialistas.

“O banhista precisa entender que quando existe uma placa é porque existe um risco. A placa não está ali apenas para dizer que existe risco, mas para informar quais condições aumentam esse risco. Ela orienta a evitar o banho durante a maré alta, em áreas de mar aberto, quando a água estiver turva, quando houver ferimentos no corpo ou utilização de objetos brilhantes”, afirmou.

O local onde ocorreu o ataque fica a aproximadamente 1,8 quilômetro do trecho onde o banho de mar é proibido por decreto municipal, entre a Igrejinha de Piedade e o Hotel Barramares.

Apesar de estar em uma área historicamente associada à ocorrência de incidentes com tubarões, este foi o primeiro caso registrado especificamente nesse trecho da praia, elevando para 24 o número de ocorrências contabilizadas em Piedade desde 1992, igualando a quantidade de registros da Praia de Boa Viagem.

“Essa região não era considerada uma área tão significativa em termos de incidência. É tudo muito recente. Alguns membros do comitê defendem uma recomendação de fechamento temporário, outros entendem que é preciso aprofundar os estudos. Só os estudos vão dizer qual será a melhor medida”, declarou Denise.

Segundo a secretária, cabe ao Cemit analisar fatores como profundidade, geomorfologia, marés, frequência de utilização pelos banhistas e histórico de ocorrências antes de formular recomendações.

“O que cabe ao Cemit é discutir a área, avaliar profundidade, maré, frequência de incidência e recomendar medidas. Essas medidas podem ir desde intensificar ações de educação ambiental até recomendar fechamento temporário ou interdição”, explicou.

Espécie foi identificada

Após análise das imagens das lesões, os especialistas identificaram que o incidente envolveu um tubarão-cabeça-chata.

“Com base no arco da mordida, estimamos um animal com aproximadamente 2,5 metros de comprimento”, afirmou Denise.

Segundo ela, o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre são as espécies mais associadas aos incidentes registrados em Pernambuco.

“O cabeça-chata é uma espécie muito citada pelos pescadores da região do Rio Jaboatão. Existem dados indicando que essa área é utilizada para reprodução. Tanto ele quanto o tubarão-tigre possuem hábitos costeiros e frequentam águas rasas”, destacou.

Outro ponto destacado pela secretária é que o litoral da Região Metropolitana do Recife reúne condições que atraem grandes predadores marinhos.

A faixa costeira abriga áreas de desova de tartarugas marinhas, consideradas fonte de alimento para ambas espécies de tubarões.

Segundo Denise, esses animais não estabelecem um limite de profundidade para procurar alimento.

“Eles não medem profundidade para buscar alimento. São animais que podem chegar muito próximo da faixa de areia. Quando falamos de áreas de mar aberto, não existe água segura apenas porque está rasa. Não é água no joelho, não é água na cintura. Em locais onde sabemos que essas espécies ocorrem, a recomendação é evitar entrar no mar aberto”, afirmou.

Como ocorreu o ataque

Informações repassadas pela família ao Cemit indicam que o menino estava acompanhado por familiares e permanecia em uma área rasa, com água na altura da cintura.

Segundo Denise, a água turva pode ter contribuído para o incidente.

“O cabeça-chata e o tigre utilizam águas rasas. Quando a água está turva, eles não conseguem usar a visão adequadamente e passam a utilizar outros sentidos, como a eletrorrecepção e o olfato”, explicou.

De acordo com a especialista, o comportamento mais provável é o chamado ataque de investigação.

“O animal não é assassino e não está procurando pessoas. Ele está procurando alimento. Quando encontra algo que não consegue identificar, ele realiza uma mordida de investigação. Ao perceber que não se trata de uma presa natural, normalmente se afasta. O problema é que estamos falando de animais grandes, com dentição muito desenvolvida e uma mordida extremamente forte”, afirmou.

Segundo a avaliação dos pesquisadores, a lesão registrada na mão da criança pode ter ocorrido quando ela tentou se defender.

“Acreditamos que a criança levantou a mão para se proteger e acabou sofrendo uma segunda lesão”, explicou.

Estudo vai monitorar deslocamento dos tubarões

O incidente ocorreu justamente no momento em que Pernambuco inicia uma nova fase de estudos sobre a presença de tubarões no litoral.

O edital de monitoramento lançado pelo Governo do Estado teve como vencedora a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O projeto será coordenado pelo professor Paulo Oliveira.

Segundo Denise, a pesquisa, que deve durar cerca de 24 meses, permitirá compreender como os animais utilizam diferentes áreas da costa.

“Hoje nós conhecemos alguns pontos de ocorrência, mas ainda não sabemos exatamente como essas espécies estão utilizando determinados trechos do litoral. Esse estudo vai ajudar a responder essas questões.”

O monitoramento será realizado por meio da captura dos animais para implantação de microchips e da instalação de receptores acústicos em pontos estratégicos.

“Os animais serão marcados e acompanhados. Também serão instaladas redes acústicas submersas. Quando esses tubarões passarem pelos locais monitorados, os equipamentos captarão os sinais e permitirão acompanhar os deslocamentos por georreferenciamento e satélite”, detalhou.

Denise afirmou ainda que cinco projetos de educação ambiental financiados pelo Estado deverão ampliar a atuação no trecho onde ocorreu o ataque.

Segundo ela, boa parte das ações atualmente se concentra na região da Igrejinha de Piedade, considerada historicamente um dos principais pontos de atenção.

“Os projetos já conversaram conosco sobre ampliar as ações para essa região. A educação ambiental é fundamental porque apenas colocar placas não resolve.”

A secretária destacou que mesmo após o incidente diversas pessoas continuaram entrando no mar. “Ontem mesmo, depois do acidente, havia pessoas voltando para a água. Não adianta apenas proibir se as pessoas não respeitarem os alertas.”

Flagrante

Na manhã desta segunda-feira (1º), enquanto a equipe de reportagem conversava com a secretaria, um adolescente de 14 anos teve de ser retirado do mar por uma equipe do Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE).

O caso aconteceu um dia após o ataque. Quando foi avistado pelos agentes, o adolestente já se encontrava com a água na altura da cintura.

Segundo a equipe, o garoto afirmou que pretendia entrar mais afundo, mas foi interceptado a tempo.

Placas foram danificadas

Nos últimos anos, Pernambuco instalou cerca de 150 novas placas de advertência sobre o risco de incidentes com tubarões.

Segundo Denise, aproximadamente 90 continuam em boas condições.

“As demais foram retiradas, vandalizadas ou pichadas. Nós discutimos esse assunto na última reunião do Cemit e existe um levantamento realizado pelo Corpo de Bombeiros para reposição dessas placas”, afirmou.

Além da sinalização, o Estado investiu em motos aquáticas para agilizar resgates, projetos de pesquisa e educação ambiental.

“Já foram investidos mais de R$ 5 milhões em pesquisas, aplicativos, cartilhas, sites e projetos educativos. Não adianta apenas entender o comportamento dos animais se as pessoas não compreenderem os riscos”, disse.

Atendimento à vítima

O Corpo de Bombeiros informou que foi acionado logo após o incidente e chegou ao local em menos de dez minutos.

Quando a equipe chegou, a criança já havia sido retirada da água por populares.

“Assim que tomamos conhecimento da ocorrência, chegamos rapidamente. Quando chegamos, o menino já estava fora da água e apresentava ferimentos graves”, relatou a tenente Paloma Mendes.

Os militares realizaram os primeiros socorros ainda na faixa de areia.

“Nós fizemos o atendimento pré-hospitalar e estabilizamos os ferimentos ainda na praia. Depois disso, ele foi transferido para uma unidade avançada do Samu, que possui recursos para procedimentos mais complexos”, explicou.

Após o atendimento inicial, a vítima foi levada para o Hospital da Aeronáutica e posteriormente transferida para o Hospital da Restauração.

Segundo a oficial, a criança estava consciente quando foi retirada da água, mas entrou rapidamente em choque.

“Foi uma lesão muito grave e houve grande perda de sangue. Ele estava consciente inicialmente, mas entrou em choque pouco tempo depois”, afirmou.

Bombeiros reforçam orientações

De acordo com a tenente, a população deve acionar imediatamente os serviços de emergência em situações semelhantes.

“Muitas vezes as pessoas querem filmar ou fotografar antes de chamar ajuda. O correto é acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros.”

Ela destacou ainda que o trecho onde ocorreu o incidente é monitorado por equipes da corporação.

Existem postos fixos de guarda-vidas na Igrejinha de Piedade e em Barra de Jangada, além de rondas constantes realizadas por terra e pelo mar.

“Nosso litoral é muito extenso e não conseguimos estar fisicamente em todos os pontos, mas realizamos rondas frequentes para reduzir ao máximo o tempo de resposta”, explicou.

A oficial também defendeu o reforço da conscientização dos banhistas.

“Mesmo em áreas onde existe proibição, ainda há pessoas que entram na água. Por isso, além das placas, é necessário investir em prevenção e educação.”

Histórico

O ataque registrado no domingo é o 83º incidente com tubarões contabilizado pelo Cemit desde 1992.

O primeiro caso documentado pelo órgão também ocorreu na Praia de Piedade.

Com o novo registro, Piedade chega a 24 incidentes, igualando a quantidade de ocorrências registradas na Praia de Boa Viagem.

Dos 83 casos contabilizados pelo Cemit, 69 ocorreram no Grande Recife e outros 14 em Fernando de Noronha.

Apesar desse histórico, este foi o primeiro incidente registrado especificamente no trecho da praia onde o menino de 11 anos foi atacado.