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Provocações e excessos da riqueza marcam ‘Rosebush Pruning’, novo filme de Karim Aïnouz

Thriller satírico foi exibido no 28º Festival do Rio na Mostra Panorama Mundial

André Guerra

Publicado: 06/10/2026 às 17:45

Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Cage, Riley Keogh e Tracy Letts (esquerda para a direita/cima para baixo) vivem família cheia de relações turbulentas/MUBI/Divulgação

Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Cage, Riley Keogh e Tracy Letts (esquerda para a direita/cima para baixo) vivem família cheia de relações turbulentas (MUBI/Divulgação)

A irreverência e a audácia não são estranhas à filmografia de Karim Aïnouz. Em “Rosebush Pruning”, exibido na Mostra Panorama Mundial do 28º Festival do Rio, porém, cores fortes e ideias ácidas ganham mais protagonismo do que o calor e a intensidade. Segundo longa-metragem em língua inglesa do cineasta cearense (o primeiro foi “O Jogo da Rainha”, de 2023), esta sátira familiar perversa é ligeiramente inspirada no filme italiano “De Punhos Cerrados”, de Marco Bellocchio, mas constrói seu próprio universo de maneira nada ortodoxa.

O roteiro foi escrito por Efthimis Filippou e narra a história de uma família rica que vive em uma mansão opulenta e isolada na Espanha. Os irmãos Jack (Jamie Bell), Ed (Callum Turner), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage) são totalmente sustentados pela fortuna do pai (Tracy Letts), um homem cego. Situações cada vez mais absurdas se desdobram nesse ambiente, no qual ócio, amor, desejo e necessidade de pertencimento frequentemente se confundem. Pamela Anderson e Elle Fanning têm participações pontuais, emprestando sua fotogenia à luz superexposta da fotografia de Hélène Louvart.

“Eu nunca havia feito uma sátira desse tipo. Sempre adorei rir no cinema e acho que o único projeto em que adentrei mesmo nesse mundo do humor e do artificial foi com ‘Madame Satã’, mais de 20 anos atrás”, destaca Karim Aïnouz em entrevista ao Diario. “Não é um remake do filme do Bellocchio, até porque tudo aqui está muito diferente e expõe diversas preocupações temáticas que eu tenho, que eu não queria que se tornassem apenas pano de fundo. Cada cena é mais louca do que a outra, como se estivéssemos entrando em um tornado”, acrescenta.

A saturação extrema das cores coloca “Rosebush Pruning” (na tradução literal, algo como “Poda da Roseira”) em diálogo com boa parte da obra de Karim, em particular o premiado “A Vida Invisível” e o seu filme mais recente, “Motel Destino”. Aqui, no entanto, não há muitos contrastes entre distintas realidades, quiçá personagens com os quais a plateia pode se identificar. São todos igualmente detestáveis — e é da premissa de colocá-los em confronto com suas perversidades que o longa busca tirar algum prazer, ainda que mórbido.

O registro das atuações foge do naturalismo e abraça um exagero farsesco, especialmente à medida que a trama assume seu caráter totalmente descolado da realidade que cerca seus protagonistas. Dramaturgo e roteirista veterano, o ator Tracy Letts parece um centro gravitacional em torno do qual as insanidades dos filhos transcorrem.

“Foi uma das pessoas mais queridas dessa produção. Um dia em que ele não tinha nenhuma cena para gravar, cheguei a deixá-lo vir ao set para mostrar um pouco das filmagens pelo monitor para discutirmos marcação, encenação e enquadramento, já que ele está prestes a dirigir seu primeiro filme e queria saber mais do processo”, revela Karim, que conclui reforçando sua satisfação em trabalhar com um elenco tão diverso. “Cada um tem uma peculiaridade diferente e, ao mesmo tempo, eles precisam convencer como partes dessa mesma família. Não foi fácil, mas o resultado ficou bem divertido de assistir”.

Exibido em competição pelo Urso de Ouro no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, “Rosebush Pruning” tem sua estreia nacional marcada para 15 de outubro.


*O repórter viajou a convite do Festival do Rio.

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