Peça "Barraco 8" estreia no Recife com história sobre afetos e resistência na periferia
Dirigida por Emmanuel Matheus, "Barraco 8" fica em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho entre esta quarta-feira (7) e o domingo (11)
Publicado: 06/10/2026 às 17:34
A peça é focada na história de Diana, uma mulher trans que estuda Medicina (Divulgação)
Uma casa pode guardar muito mais do que seus moradores. Em “Barraco 8”, novo espetáculo escrito e dirigido por Emmanuel Matheus, o espaço doméstico se transforma em território de afetos, desejos, violência, sobrevivência e sonhos. A montagem estreia no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, com sessões entre este quarta-feira (7) e domingo (11), e acompanha seis personagens que dividem o mesmo teto até que um disparo, na madrugada, altera não apenas o destino daquela casa, mas também a própria linguagem da cena. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.
Ambientado na periferia do Recife, o espetáculo tem como centro Diana, uma mulher trans e estudante de Medicina que tenta construir um futuro distante da violência e do controle da tia Inocência, dona da casa e das regras que organizam a vida de seus moradores. Ao redor delas estão Val, um homem armado que não consegue enfrentar os próprios desejos; Gustavo, jovem silencioso que planeja uma fuga; J, vendedor de água que enxerga beleza onde outros veem apenas miséria; e Ivan Pastrami Lohany, que transforma o próprio corpo em trabalho, espetáculo, humor e sobrevivência.
Em “Barraco 8”, o barraco não é apenas cenário. Ele funciona como um organismo vivo que guarda o que aconteceu, escuta o que não é dito e aperta seus moradores até que alguma coisa se rompa. A dramaturgia parte do cotidiano para apresentar personagens que, muitas vezes, são reduzidos a estatísticas, estereótipos ou notícias de violência. São pessoas com desejos, contradições, inteligência, sexualidade, medo, esperança e sonhos.
A montagem aborda questões como transfobia, violência doméstica, exploração, prostituição, masculinidade construída pela força e pelo medo, pobreza, abandono, direito ao estudo e ao futuro e as relações entre pertencimento e aprisionamento. Ao mesmo tempo, a peça procura escapar de uma representação da periferia limitada à miséria ou à brutalidade. Festa, humor, sensualidade, solidariedade entre vizinhos, pequenos comércios, desejos e sonhos também fazem parte desse território.
“Eu sempre quis escrever sobre a periferia, sobre a minha vivência como homem negro periférico. A partir dos meus últimos processos, principalmente do processo com Hblynda, entendi a realidade de ser uma pessoa trans e tive vontade de juntar essas duas temáticas: a minha vivência e a de uma mulher trans, vivenciando todas as injustiças que a sociedade faz”, afirma o diretor Emmanuel Matheus.
O humor é parte fundamental dessa construção. Para o dramaturgo, suas obras nunca se limitam ao drama ou à comédia, porque a própria experiência cotidiana é feita da convivência entre extremos. Em “Barraco 8”, essa característica aparece desde o primeiro ato, marcado pela leveza, pelo humor ácido e pelas relações entre os moradores, enquanto as tensões se acumulam até o momento em que a violência muda o curso da narrativa.
A encenação começa apoiada em uma atuação naturalista e íntima, aproximando o público da rotina dos personagens. Depois do disparo, entretanto, essa construção é rompida. O realismo dá lugar a uma linguagem mais fragmentada, política e inspirada no teatro brechtiano. Os atores passam a expor os mecanismos da representação, enquanto gestos, estranhamentos, composições visuais e quebras da quarta parede deslocam o público da posição confortável de observador.
A mudança de linguagem funciona também como um convite à reflexão. Depois de construir uma relação de proximidade e empatia com os personagens, a montagem interrompe esse processo para que a plateia observe novamente aquilo que acabou de testemunhar. A violência, então, deixa de ser apenas um acontecimento da ficção e passa a ser encarada como algo construído socialmente, repetido e sustentado também pelo silêncio.
A trajetória de Emmanuel Matheus dialoga com essa proposta de investigação sobre diferentes territórios e experiências. Em 2023, o dramaturgo foi indicado a Melhor Diretor no 29º Janeiro de Grandes Espetáculos por Pedras, Flor e Espinho, espetáculo produzido pela ACA Produções e vencedor de Melhor Espetáculo de Teatro Adulto naquela edição.
Ele e a ACA Produções seguem agora com “Barraco 8”. "Pedras, Flor e Espinho" também recebeu, em 2026, 11 indicações ao 25º Anual Prêmio Cenym de Teatro Nacional, incluindo Melhor Direção e Melhor Texto Original para Emmanuel Matheus.
O espetáculo é uma realização da ACA Produções e conta com incentivo do SIC – Sistema de Incentivo à Cultura / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura da Cidade do Recife.
Serviço:
"Barraco 8"
Quando: Desta quarta (7) a sexta-feira, às 19h30; sábado (10), às 16h e 19h30; e domingo (11), às 16h
Acessibilidade: todas as sessões contam com tradução em Libras.
Ingressos:
Entrada gratuita mediante reserva antecipada pelo Sympla, com retirada até 30 minutos antes de cada sessão na bilheteria do teatro.
Social: R$15 + 1 kg de alimento não perecível, entregue na entrada do teatro.
Meia-entrada: R$15.
Inteira: R$30.
*Com informações da assessoria