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De Toritama, Zé do Cão quebra estereótipos do interior em disco com influências eletrônicas e nordestinas

Zé do Cão é o nome artístico do músico Vinícius Tavares para representar sua trajetória entre o trabalho no setor de confecções e o universo artístico

Allan Lopes

Publicado: 02/10/2026 às 06:00

Vinícius Tavares se apresenta como Zé do Cão, inspirado no filme

Vinícius Tavares se apresenta como Zé do Cão, inspirado no filme "A Noite do Espantalho" (1974) (Foto: Virgínia Guimarães)

“Zé” é um nome associado, no imaginário popular, à figura de alguém comum. Para Vinícius Tavares, no entanto, a palavra possui outras camadas e ganhou um significado particular.

Inspirado em um personagem vivido pelo saudoso José Pimentel, no filme “A Noite do Espantalho” (1974), Zé do Cão virou o nome pelo qual o artista de Toritama passou a reivindicar seu espaço na cena musical pernambucana, mostrando as vivências de quem cresceu em meio à cadeia produtiva do jeans e às referências da cultura popular.

O próximo passo dessa trajetória será no 23º Festival No Ar Coquetel Molotov, onde ele apresenta seu primeiro EP no Campus da UFPE, em 28 de novembro.

Criado em uma família ligada ao setor de confecções, Vinícius não teve exatamente uma referência musical dentro de casa. Por meio da oralidade da avó, dona de muitas histórias, assimilou uma de suas primeiras referências para a construção da sua poética. “A maneira como ela observa o mundo é muito importante para mim até hoje”, diz o músico em entrevista ao Diario.

Ele começou a se interessar pelos instrumentos na adolescência e, de forma autodidata, aprendeu a tocar violão enquanto observava outras pessoas. Mais tarde, descobriu como produzir as próprias músicas e passou a fazer as primeiras gravações em casa. “Na época, não cheguei a publicar porque ainda estava no processo de me reconhecer como artista. Mas acredito que esse seja o meu destino”, afirma.

A sensação de não pertencer inicialmente ao universo artístico deu origem à figura de Zé do Cão, que Vinícius Tavares usa para representar quem chega à música por caminhos menos convencionais. “Sou um Zé que sempre trabalhou em outras áreas, que sempre esteve inserido no mundo do trabalho, passou pela cadeia produtiva do jeans e também trabalhou como vendedor”, brada o artista.

A escolha do nome também se relaciona ao filme “A Noite do Espantalho”, gravado em Brejo da Madre de Deus, que chamou sua atenção pela história e pelos personagens, entre eles o próprio Zé do Cão, antagonista da trama. “Ele é um Zé qualquer, mas é Zé do Cão. É uma forma de provocar e questionar o que é possível fazer enquanto trabalhador que começa a fazer arte”, explica.

Cerca de 172 km separam Toritama da Região Metropolitana do Recife. Mais do que a distância percorrida pela estrada, porém, existe um outro afastamento, alimentado pela visão estereotipada sobre artistas naturais do interior de Pernambuco. Em seu primeiro EP, intitulado “ZÉ DO CÃO - CAP. 1” e lançado em maio deste ano, Vinícius propõe um olhar menos previsível sobre a produção musical do Agreste.

Ao longo de sete faixas, aboio, samba, repente, coco e embolada são postos em diálogo com a música eletrônica e outras influências contemporâneas, tensionando a ideia de uma cultura popular cristalizada com a pista de dança.

A estreia de Vinícius no Molotov representa, para ele, uma oportunidade de mostrar que, assim como o jeans produzido no Agreste chega a diferentes lugares, a música feita na região também pode romper fronteiras e alcançar novos públicos.

“É muita resistência. Conseguir reconhecimento e estar nesses espaços tem uma importância muito grande, inclusive para o povo da confecção, porque são pessoas que vêem de perto a luta que é produzir arte longe da capital”, enaltece.

Para a apresentação, ele prepara uma versão mais completa do projeto Zé do Cão. Depois de realizar os primeiros shows sozinho, o artista levará ao palco um DJ, um backing vocal e a banda de pífano Curopife, de Caruaru.

“Vai ser uma das misturas mais bonitas que a gente pode fazer. Estou muito envolvido nesse processo de criação do show. Já tenho tudo estruturado, mas vou tentar trazer algumas novidades, porque acredito que cada oportunidade precisa ser muito bem vivida. Quero aproveitar esse momento, colocar tudo no show e mostrar minha identidade artística, além de conversar e brincar com o público”, celebra Vinícius.

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