Xico Sá lança livro no melhor estilo jornalismo gonzo
Jornalista e escritor reconstitui os últimos dias de PC Farias antes de ser encontrado morto com a namorada Suzana Marcolino
Nahima Maciel - Correio Braziliense
Publicado: 30/08/2026 às 19:13
Na narrativa do autor, o repórter é também um personagem da história (Foto: Renato Parada/ Divulgação)
Quando Xico Sá começou a cobertura das denúncias de corrupção que resultariam no impeachment de Fernando Collor de Mello, ele tinha ideia de que o material poderia render um livro. Na época, o ritmo alucinado da sequência apuração-furo-matéria impedia a elaboração literária dos textos — e Xico ficava aflito com isso — e fazia o repórter escrever rapidamente, de forma clara e objetiva, sem firulas nem piadas nem detalhes desnecessários para a compreensão imediata do fato. Agora, 30 anos depois daquela noite de 23 de junho de 1996 em que PC Farias, pivô do escândalo, e a namorada Suzana Marcolino foram encontrados mortos na casa de praia próxima a Maceió, Xico achou por bem voltar à história e produziu "O Tesoureiro". "Eu tinha a pretensão de fazer, sempre houve, desde essa época. Então, eu tinha tudo muito bem guardado", avisa o autor.
No melhor estilo jornalismo gonzo, em que o repórter é também um personagem, e ancorado numa protagonista que ele apelidou de Brigitte Monfort, a garota de programa espiã cuja proximidade com a família Collor de Mello guiou Xico pelo submundo da política alagoana, o livro é um misto de memória, perfil e reportagem em linguagem literária que reconstitui o primeiro maior escândalo da Nova República.
Paulo César Farias, tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello, era, em suas próprias palavras, "um capitalista nato que encontra os amigos certos no poder público". Fez fortuna negociando as pontes entre o PIB do país e o poder em um momento em que o Brasil recém-saía da ditadura e vivia a estreia na democracia. Collor foi eleito presidente pelo Partido Republicano Nacional (PRN) em 1989 e renunciou em dezembro de 1992 após um processo de impeachment alimentado por denúncias de corrupção do que ficou conhecido como "esquema PC". Na roda de dinheiro que fazia a Nova República girar estavam Paulo César Farias e a elite empresarial brasileira, com a conivência e participação do Congresso Nacional.
Xico Sá começou a cobrir o caso desde o início. Foi dele o furo de que PC Farias havia fugido para Londres quando o medo de ser preso apertou. Graças a Brigitte Monfort e outras fontes que circulavam nas margens do poder, o então repórter da Folha de São Paulo pode seguir os passos de PC e até se aproximar do tesoureiro ao ponto de ter com ele conversas altamente filosóficas sobre a vida e o destino. Boa parte do livro nasceu das anotações registradas nesses encontros. "Os pensamentos foram construídos por duas fontes: o próprio PC, quando ele estava na prisão, em Brasília, tive longas conversas com ele, as maiores conversas que eu tive com ele foi nesse período", conta Xico. "E ele relembrava muito, até meio rindo da história. E a dona Elma Farias, mulher dele, também me ajudou muito nessa reconstituição. Mas isso foi há muito tempo. E isso eu tinha eu tinha anotado, eu tinha nos cadernos, que eu usei muito para as matérias da época."
Escrever o livro, Xico conta, foi uma maneira de dar uma dimensão mais humana para os personagens, perspectiva quase impossível na produção de informação diária. "O livro tem esse universo que eu acho que o jornalismo corrido do dia a dia não dá conta. Quem dá conta disso é a literatura, é o romance. São coisas que, escritas de uma maneira só para jornal, podiam até revelar o escândalo, o dinheiro público, etc., mas não revelavam nada da humanidade de cada um", conta Xico, que conversou com o Correio sobre um dos períodos mais conturbados da volta à democracia.
Você optou por um livro claramente inspirado no jornalismo gonzo de Hunter S.Thompson, que você cita, inclusive. Por quê?
Talvez por eu gostar muito dessa linha, mas é que a história é muito desse universo. As pessoas falam "Ah, o roteirista do Brasil caprichou". Mas esse roteirista do Brasil é meio gonzo, porque as histórias são malucas. E como estou fazendo esse livro 30 anos depois da história, eu queria fazer algo o mais literário possível. Daí, ele tem um pouco disso que a gente chama de jornalismo literário e o pé nesse jornalismo gonzo do Hunter Thompson. Acaba abarcando esses dois universos porque, já que eu estou escrevendo uma história 30 anos depois, sem o compromisso daquele jornalismo do dia a dia em que a gente tem que ser mais direto, mais objetivo e cumprir o manual. E escrever assim foi até uma forma de me vingar da pobreza do meu texto na época, porque, por conta das circunstâncias, você apurava, corria, tinha que escrever dentro daquela linha mais comum possível, porque não podia inventar muito. Agora, chegou a hora de brincar mais com a literatura, com as técnicas literárias de um romance policial em alguns momentos. Então, foi essa a vingança que executei.
O que mudou na sua compreensão sobre esse caso todo e sobre aquele período do Brasil ao escrever o livro?
Naquele momento, tanto eu como uma dezena de repórteres, nós estávamos na pós-ditadura com o primeiro grande escândalo de corrupção na mão. E todo mundo estava meio aprendendo, tentando compreender o que era aquilo, o escândalo a partir de financiamento de campanha, tudo era muito novo, porque durante a ditadura era praticamente impossível investigar qualquer coisa. Então, era um bando de repórteres tentando descobrir como investigar um caso daquele. Aprendemos muito juntos naquele momento. Tanto que eu acho que o livro é muito uma homenagem aos repórteres do caso, aos repórteres que estavam ali, gastando sola de sapato naquele momento. Agora, 30 anos depois, com o repertório de escândalos, de casos de corrupção que passamos, já temos mais compreensão do personagem, de como ele se faz. O livro tem essa coisa: por que existe o PC Farias? Como se faz o PC Farias.
E como?
Fica evidente no livro a ideia de que era um cara meio outsider, que não era da alta sociedade alagoana e queria se aproximar das famílias com muita grana com interesse de virar um operador desse sistema de caixa. O livro traz essa construção desse PC Farias, como é que se faz um tesoureiro de campanha. Ele sempre teve na cabeça a ideia de ser muito rico e, para isso, a primeira medida é se aproximar da oligarquia local. Era uma questão de oportunidade, como ele falava e, no livro, você entende como é que se faz uma figura dessa, que não era da família Collor, não era da família Lira, não era ligada aos usineiros. De repente, o cara se faz muito poderoso, vai comendo pelas beiradas, se aproxima das famílias e vira esse personagem.
Essas histórias encontram muito eco nas histórias de hoje? Você fala dos anões do orçamento, por exemplo, outro escândalo de corrupção, e hoje temos as emendas Pix legalizadas. As histórias continuam?
É, você matou tudo agora. As coisas foram se legalizando. A bandidagem. É o caso do Orçamento, hoje a gente tem aquelas mesmas emendas, aquelas emendas dos anões do Orçamento seriam um troco de café hoje. Não existe mais orçamento, o que era secreto agora virou escancarado. As emendas são tudo aquilo que ia para o bolso, e agora vai para o bolso do mesmo jeito, só que é legal. Houve uma piora em relação ao Orçamento do Congresso, o mesmo orçamento que o PC trabalhava muito em cima, agora foi legalizado.
O que esse caso te ensinou sobre jornalismo investigativo?
Me ensinou muito, me ensinou a sair um pouco das autoridades oficiais e a mergulhar no mundo do segundo escalão, daquele funcionário que você não dá nada por ele, do assessor do assessor. A minha fonte, por exemplo, é uma garota da noite de Maceió, mas que tinha mais envolvimento com a família Collor do que qualquer autoridade, do que qualquer delegado da Polícia Federal ou da Polícia Civil de Alagoas, do que qualquer autoridade constituída. Nem sempre as histórias estão com as fontes oficiais, tem que buscar um pouco o submundo, as pequenas autoridades ou personagens que eram da intimidade dessas figuras poderosas, mas que não tinham cargo nenhum e estavam ali tomando um whisky na noite de Maceió. Eu achava que, encontrando eles fora do ambiente da tensão do dia ou do trabalho, eu poderia ter alguma informação.
Mudou muito a cobertura hoje, com as redes sociais, outras formas de comunicação?
É mais raro. Hoje, os repórteres vivem mais de vazamentos seletivos, nos quais se escolhe o repórter, dependendo do veículo. A fonte sabe a quem interessa um vazamento e vai procurar o repórter. Mas temos ótimos repórteres, continuamos tendo excelentes repórteres. O processo é diferente. Por exemplo, para obter qualquer documento, comprovar qualquer coisa, eu dependia de convencer um funcionário público de uma delegacia ou de uma empresa estatal a me apresentar aquele documento. Era um trabalho muito de gastar a sola de sapato, de convencimento. Hoje, basta eu abrir o Portal da Transparência ou fazer uma solicitação, um pedido, um ofício. Tudo era mais braçal. Você ia num fórum pesquisar um processo e, quando convencia o funcionário público, ele trazia uma pilha de uns dois metros de documento e você gastava uma semana folheando o documento. O mesmo documento está hoje ao alcance, você não parte mais do nada como a gente partia. Essa busca era infinitamente mais difícil, exigia rua, apostar em fontes, na conversa. Era um processo muito complicado.
A velocidade da circulação da informação modificou o tempo de apuração de um jeito que facilitou o acesso, mas dificultou o processamento dos dados?
Exatamente, a gente tinha, pelo menos, 24 horas de busca para o que seria publicado, agora você fica minuto a minuto. E tem 1 milhão de informações. Você não sabe nem dar uma hierarquia, uma organizada do que é importante e do que não é. E também a coisa importante, às vezes, se desmancha, se dissolve no noticiário, até a hierarquia, que era muito bem definida, sabia-se bem o que era a manchete principal, o que era a manchete logo abaixo, o que era a manchete da página interna, era um mundo muito organizado, agora é outro cenário.
Como foi transformar essa experiência vivida também em narrativa? Porque você conta a sua história um pouco...
Sim, acabo colocando, é esse flerte com a literatura, com o jornalismo gonzo do repórter se colocar na história. Óbvio que eu estou ali mais como anti-herói, quando começo dizendo que eu só tinha um diploma de detetive de uma correspondência. Mas eu creio que o personagem principal do livro é a Brigitte, a espiã, ela é a grande personagem. É um personagem improvável que acaba me revelando e revelando para o país inteiro tudo do PC, o paradeiro, as festas do Collor ainda na prefeitura. Ela tinha nojo do Collor antes da questão da corrupção pública, o Collor como homem, da maneira como ele olhava para ela com desprezo. Quando o Brigitte fala do olhar dele, do nojo, ela como garota de programa, é uma revelação humana mais grandiosa do que o escândalo de corrupção, por exemplo. E que não caberia numa matéria. Isso, quem dá conta é a literatura.
Quais eram as grandes perguntas que ficaram sem resposta?
A gente continua com a pergunta em aberto: quem matou? É uma pergunta em aberto. E o julgamento, 13 anos depois da morte, com um resultado que deixa um pouco em aberto, porque o juiz declara que houve um duplo assassinato, mas dá um voto de clemência para os seguranças que poderiam ter executado a Suzana Marcolino, o que significa que um deles pode tê-la matado depois de ela ter matado o PC, mas o voto de clemência acaba não culpando, não condenando ninguém, então a morte continua em aberto. E tem a questão de qual era realmente a ligação do Collor com o PC? Eu acho que está respondida pelo PC no livro, quando ele diz que é uma ideia de sociedade mesmo, desde o começo. E por que só o Paulo César? Uma pergunta que Elma Farias desde o começo e ninguém, nem nós mesmos, da imprensa, demos atenção. Talvez por ser um escândalo muito de homens, e a imprensa também desprezou a fala da Elma o tempo inteiro nessa história. Todo mundo tratava mais no campo da histeria feminina do que como uma grande informação, como algo que deveria ser investigado. A justiça também tratou dessa forma, todo mundo menosprezou.
Como essa história toda ajuda a compreender os mecanismos que continuam presentes na política brasileira?
É, eu acho que está tudo em aberto. O financiamento de campanha, por exemplo, mudou, agora é público, pelo fundo partidário que cada partido recebe, mas tem a brecha do empresário poder doar para pessoa física. Ou seja, a sacanagem continua da mesma forma. Se eu pegar no caso Master, vai ver lá o esquema do Daniel Vorcaro depositando altas quantias para todos os políticos, inclusive para o comitê de campanha do Jair Bolsonaro, em 2022. O mecanismo continua em aberto e gerando o mesmo PC Farias, a mesma ideia de corrupção. Quando o Daniel Vorcaro faz aquelas surubas, aquelas festas em Trancoso para atrair todo mundo, era o mesmo expediente Lago, em Brasília, e nas boates de Alagoas no tempo do Collor. Então, o mecanismo, digamos assim, está muito vivo. E, no caso do orçamento em relação ao Congresso, foi até legalizado. É pior ainda. O Brasil não cuidou bem de resolver esses problemas. Os intestinos da corrupção seguem abertos.