70 anos de "Grande Sertão: Veredas": Nova edição e biografia de Guimarães Rosa reforçam legado do autor
Em comemoração aos 70 anos de "Grande Sertão: Veredas", a Companhia das Letras lança edição especial de luxo da obra, enquanto Guimarães Rosa ganha nova biografia pela Nova Fronteira/Topbooks
Marcus Lopes - Especial para o Diario
Publicado: 17/08/2026 às 08:08
O escritor Guimarães Rosa atuou como diplomata na embaixada brasileira na Alemanha (Arquivo Público Mineiro)
Em janeiro de 1956, o jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, informava que o escritor e diplomata mineiro João Guimarães Rosa acabava de entregar à editora José Olympio os originais do seu primeiro romance: “Grande Sertão: Veredas”, livro que, nas palavras do prestigiado colunista literário da época, o pernambucano José Condé, “se tornará uma espécie de leitura suplementar de ‘Os sertões’, de Euclides da Cunha”.
Condé, que nasceu em Caruaru e foi um dos mais respeitados jornalistas culturais de sua época, tinha razão. “Grande Sertão: Veredas” completa 70 anos como uma das mais completas e respeitadas resenhas do sertão brasileiro. Rosa, a exemplo de Euclides de Cunha, conseguiu, por meio da história do jagunço Riobaldo e seu amor por Diadorim, traduzir não apenas as características naturais e sociais de uma terra forte, mas a alma do Sertão brasileiro, aquele sertão que, como escreveu Rosa, “é dentro da gente”.
Para isso, não bastava a imaginação do escritor. Era necessário conhecer a fundo esse mundo complexo e mágico do Sertão, o mesmo que, também nas palavras do escritor, “está em toda parte”. Mesclando o espírito de um desbravador e o olhar atento de um repórter, Rosa, em maio de 1952, viajou com uma comitiva de condução de gado pelo interior de Minas. A boiada era um ambiente familiar ao autor nascido em Cordisburgo, cidade que é considerada uma das portas de entrada do Sertão mineiro.
“Sou essencialmente um homem do Sertão. Todos os meus personagens existem e são todos os meus amigos”, declarou Rosa à imprensa, meses após o lançamento do livro. Graças ao sucesso estrondoso do livro, alguns desses amigos reais se tornariam tão importantes e conhecidos do público quanto os personagens do livro, como o vaqueiro Manuel Nardi, o “Manuelzão”, chefe da comitiva de gado.
“Ele queria ser o mais revolucionário e inovador escritor do Brasil. Conseguiu”, atesta o jornalista e escritor Leonencio Nossa, autor da recém-lançada biografia de Guimarães Rosa (Editora Nova Fronteira e Topbooks, 736 páginas). Da infância em Cordisburgo, onde nasceu em 1908, à morte súbita no Rio de Janeiro, em 1967, poucos dias após a posse na Academia Brasileira de Letras, a obra é um dos mais completos tratados sobre a vida do médico, diplomata e escritor que revolucionou a literatura brasileira com a originalidade e a grandeza de suas obras.
“João Guimarães Rosa renovou o conto e o romance em língua portuguesa a partir da oralidade dos povos formadores do Brasil, do meio ambiente e de sua experiência pessoal”, atesta Nossa. Ao mergulhar na vida e na obra do escritor, o biógrafo traz à tona aspectos importantes da vida de Guimarães Rosa, como sua atuação, junto com a futura esposa, Aracy de Carvalho, na embaixada brasileira na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Desafiando as ordens do governo Getúlio Vargas, a embaixada emitiu vistos de entrada no país a judeus perseguidos pelo regime nazista, salvando-os da morte praticamente certa.
Em celebração aos 70 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, a Companhia das Letras lançou, em julho, uma edição especial de luxo. Além do projeto gráfico diferenciado, o volume inclui depoimentos de intelectuais influenciados pela obra, tais como: Eduardo Giannetti, Bia Lessa, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. “’Grande Sertão: Veredas’ está em diálogo com os grandes intérpretes do Brasil, como Euclides da Cunha e Sérgio Buarque de Holanda”, atesta a historiadora Heloisa Starling.
Em 1996, nos 40 anos de lançamento do clássico, o jornalista e escritor paulista Fernando Granato, autor do livro “Nas Trilhas do Rosa” (editora Scritta, 1996), refez a jornada de Guimarães Rosa pelo sertão mineiro, acompanhando uma boiada de Sete Lagoas a Três Marias. “Quando refiz a viagem, ainda estavam vivos alguns daqueles boiadeiros que acompanharam Rosa, inclusive Manuelzão”, lembra Granato.
Rosa, explica Granato, pretendia sintetizar o mundo no Sertão e, para isso, precisava conhecê-lo a fundo. O diplomata-escritor atuou como um repórter, anotando o jeito de falar do sertanejo, o nome das plantas, dos bichos etc. “Percebi que muito do que foi dito pelos boiadeiros a Rosa, e depois repetido para mim, havia sido colocado nas cadernetas de anotações do escritor e depois transferido para a própria obra literária”, lembra Granato.