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Há 30 anos, ‘Baile Perfumado’ reinventou o cinema pernambucano ao unir cangaço e manguebeat

Longa de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, 'Baile Perfumado' entra em cartaz no Recife novamente através da Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano, a partir desta quinta (13) na Fundaj e no Moviemax Rosa e Silva

André Guerra

Publicado: 13/08/2026 às 06:00

Lançado em agosto de 1996 no Festival de Brasília, 'Baile Perfumado' foi o primeiro longa pernambucano em duas décadas/Foto: Fred Jordão

Lançado em agosto de 1996 no Festival de Brasília, 'Baile Perfumado' foi o primeiro longa pernambucano em duas décadas (Foto: Fred Jordão)

Um grupo de amigos, uma câmera na mão e muita ousadia na cabeça. Foi no meio de uma efervescência cultural única, marcada pela confluência entre o estouro da cena musical do manguebeat e o momento de retomada do cinema brasileiro, que nasceu “Baile Perfumado”, há 30 anos.

Em agosto de 1996, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro recebia o filme, que não só sairia como o maior premiado do evento, como também mudaria a história da cinematografia nordestina, quebrando um hiato de vinte anos desde que Pernambuco havia produzido seu último longa-metragem, “O Palavrão”, dirigido por Cleto Mergulhão em 1976.

Para celebrar o feito, o filme está em cartaz no Recife novamente através Mostra Comemorativa do Cinema Pernambucano, que acontece na Fundaj e no Moviemax Rosa e Silva a partir desta quinta-feira (13)

Os líderes da empreitada foram os diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que não faziam ideia do alcance temporal de seu pioneirismo. Partindo de uma ideia de Fernando Spencer, saudoso cineasta e então crítico de cinema do Diario de Pernambuco, os dois amigos cineastas se aventuraram pelo Sertão e contaram uma saga tão fascinante que ninguém poderia ter inventado.

“Lírio estava voltando de uma temporada na Inglaterra, e eu acabara de passar um tempo na Bahia. Mas foi em uma tarde, voltando juntos de carro de Candeias para o Centro do Recife, que eu e ele decidimos que estava na hora de fazermos um longa”, relembra Paulo Caldas, em entrevista exclusiva concedida ao Diario.

“Nosso grupo, que incluía Cláudio Assis, Adelina Pontual, Hilton Lacerda e Marcelo Gomes, já havia realizado diversos curtas à época. E foi aí que me lembrei do desejo de Spencer de filmar a história do fotógrafo libanês Benjamin Abrahão, que filmou Lampião durante os anos 1930. Logo de cara, percebemos que era o mote certo”, acrescenta Paulo.

Grandes nomes do teatro, da televisão e do cinema brasileiro embarcaram na ideia. Luiz Carlos Vasconcelos, no papel de Lampião, e Duda Mamberti, que interpretou Abrahão, são destaques de um elenco que inclui participações de Aramis Trindade, Jofre Soares, Geninha da Rosa Borges, Giovanna Gold, Chico Díaz, Germano Haiut e Johnny Hooker (creditado como John Donovan, seu nome de batismo).

“Não era nada fácil fazer um filme naquela época, principalmente fora dos eixos de produção. Éramos um monte de cabeludos cheios de desejo. Discutíamos muito, nas mesas de bar, uma forma de trazer para uma abordagem contemporânea a iconografia já tão registrada no Brasil pelo filme de cangaço”, conta Lírio.

“É, talvez, o gênero brasileiro mais autêntico, que já rendeu alguns dos nossos maiores clássicos, como ‘O Cangaceiro’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’. Então, o que a gente queria era dialogar com um momento de tanta informação cultural, com a ebulição nacional do manguebeat, na música, e, no cinema, com a transição gradual da película para o digital, na virada do milênio”, explica o diretor pernambucano.

Embalado pelo som de Chico Science & Nação Zumbi, como as faixas “Sangue de Bairro” e “Salustiano Song”, além da música-tema “Baile Perfumado”, de Fred Zero Quatro, e composições de Siba, então integrante do Mestre Ambrósio, o longa marcou uma nova fase para os envolvidos. Desde seu lançamento, seus realizadores seguiram carreiras prestigiadas, dando continuidade ao legado do filme.

“É o primeiro filme de um bocado de gente. Todos nós estávamos realizando ali a nossa grande faculdade de cinema, que não existia em Pernambuco ainda naquele período. Esse frescor da estreia tem exatamente a dose do exagero e da ousadia que nunca mais poderemos reproduzir. Foi um momento único na vida de todos nós e que até hoje impressiona”, enaltece Lírio Ferreira.

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