Terceira temporada de ‘A Casa do Dragão’ mostra o pior de cada personagem e prepara final sombrio
Prequela de 'Game of Thrones', exibida na HBO Max, tem grandes cenas de ação, alto nível de intriga palaciana e excelentes atuações, ainda que pareça dramaticamente incompleta
Publicado: 10/08/2026 às 17:41
Atuação de Emma D'Arcy como Rhaenyra Targaryen é um dos pontos mais altos de toda a série (HBO Max)
Desde a sua primeira temporada, lançada em 2022 no Brasil pela HBO Max, “A Casa do Dragão” vem provocando uma comoção proporcional à sensação frequente de frustração. Ambientada 172 anos antes do início de “Game of Thrones” (2011-2019), a série, focada na disputa da família Targaryen pelo Trono de Ferro de Westeros, concluiu a sua terceira temporada com acontecimentos tão decisivos que o último episódio, por melhor que seja, pareceu incompleto.
Retomando a guerra entre Rhaenyra (Emma D’Arcy), filha do falecido rei Viserys e escolhida por ele como sua legítima herdeira, e Aegon II (Tom Glynn-Carney), o seu meio-irmão que tomou a coroa após a morte do pai, a terceira temporada já havia começado com todos os pés na porta em 21 de junho.
Os dois primeiros episódios — nos quais a protagonista invade Porto Real ao lado de seu principal aliado, Daemon (Matt Smith), após a morte do seu filho Jacaerys (Harry Collett) na Batalha da Goela — estão entre os mais catárticos de todo o universo criado pelo autor norte-americano George R. R. Martin.
Como em todas as grandes viradas de “A Casa do Dragão”, baseada no livro “Fogo e Sangue”, lançado em 2018, a conquista de um grande objetivo vem acompanhada de desdobramentos ainda piores do que o que se tentava evitar. No caso aqui, a revanche de Rhaenyra, esperada por boa parte do público desde o final da segunda temporada (2024), não tem praticamente nenhum momento pleno de catarse.
Os desafios encontrados pela nova rainha para governar se acumulam: a escassez de alimentos, a descrença do povo, a resistência do poder religioso em ungi-la e, principalmente, um novo grande inimigo: Ormund Hightower (James Norton), que se prepara para usurpar o poder.
Desde que assumiu a desejada posição de legítima herdeira, portanto, Rhaenyra ficou ainda mais encurralada do que antes. A coroa proporcionou, sim, alguns momentos genuinamente acertados para a personagem e para o público. O episódio em que a rainha serve os abastados do reino com ratos foi um dos pontos altos da temporada, por exemplo.
A falta de tato de Rhaenyra, por outro lado, com pessoas que foram peças essenciais nos seus planos de conquista, como o importante Lorde Corlys (Steve Toussaint), anunciou uma baixa de aliados difícil de equilibrar. A dificuldade de visualizar o alcance de algumas decisões a forçaram também a atitudes que desaguaram em grande violência, como o pedido para caçar aqueles que a insultaram nas ruas.
Por mais que “A Casa do Dragão” tenha dado a Rhaenyra um inimigo tão repulsivo quanto Ormund, ficou clara a tentativa do showrunner Ryan Condal de deixar os arcos dos personagens ainda mais nebulosos do ponto de vista moral. Se, nas temporadas passadas, a rivalidade entre Pretos e Verdes gerava figuras vilanescas bem definidas nas decisões tão equivocadas de Alicent (Olivia Cooke) e na frieza manipulativa de Otto Hightower (Rhys Ifans), esta terceira tratou de mostrar — ou lembrar — o que o núcleo central dos Targaryen tem de cruel.
A ausência na ação principal do odiado Aemond (Ewan Mitchell), que passou toda a temporada nas ruínas de Harrenhal (tal qual Daemon nos episódios de 2024), colaborou para tornar tudo mais cinzento. Ao contrário do que ocorreu com o personagem de Matt Smith em todo aquele penoso processo fantasmagórico, esse período recluso do regicida foi responsável por avanços verdadeiros tanto no aprofundamento dele quanto da importância que Alys Rivers (Gayle Rankin) teve e terá para os rumos do roteiro.
A boa construção, porém, se expandiu demais para chegar a este desfecho de temporada em uma nota satisfatória. O final proporcionou uma sequência fabulosa de ação, uma das mais sangrentas de toda a série, mas a conclusão cortou abruptamente núcleos narrativos que, dessa forma, parecem esquecidos. Outros simplesmente foram resolvidos de forma anticlimática porque empacaram a história por muito tempo, como o destino de Cristian Cole (Fabien Frankel).
Os quatro diretores, Clare Kilner, Loni Peristere, Nina Lopez-Corrado e Andrij Parekh, se dividiram entre os oito episódios, cada um dando uma unidade notável ao rigor visual já estabelecido pela saga. A qualidade pictórica das cenas de intriga palaciana conferiu uma qualidade de suspense que não se via desde os melhores episódios de “Game of Thrones”, especialmente quando envolviam a misteriosa conselheira Mysaria (Sonoya Mizuno). A presença dos dragões, o maior atrativo visual da série, rendeu momentos memoráveis, como um tenso encontro entre três das criaturas, no 7º episódio, com seus donos tentando contê-los.
A presença significativa de Helaena (Evie Allen) e de suas visões só reforçou a natureza dúbia do que pode estar por vir na quarta temporada, prevista para 2028. Aí, sim, talvez “A Casa do Dragão” finalmente atinja a nota de excelência que especialmente estes últimos episódios ensaiaram diversas vezes.