Com Wagner Moura, sci-fi 'A Última Casa' atira para todos os lados, mas não acerta quase nunca
Estrelada por Wagner Moura e Greta Lee, ficção científica é dirigida por Louis Leterrier (de 'Velozes e Furiosos 10') e já está disponível na Netflix
Publicado: 10/08/2026 às 19:26
(Netflix/Divugação)
Em entrevista concedida ao Diario durante o 78º Festival de Cannes, em 2025, Wagner Moura havia comentado sobre as gravações de um filme com Greta Lee, cujo título provisório era "11817". A demanda das filmagens, que ocorreram em Londres, impossibilitaram o ator de comparecer à cerimônia de premiação na Riviera Francesa, na qual venceu o troféu de Melhor Interpretação Masculina por "O Agente Secreto".
Mais tarde, foi divulgado que o nome definitivo do projeto seria "A Última Casa". Disponível no catálogo da Netflix e atualmente na liderança de audiência mundial da plataforma, a produção marca o primeiro grande trabalho de Wagner como protagonista após a sua histórica indicação ao Oscar pelo filme brasileiro. Apesar de todos os esforços do ator, no entanto, o longa frustra em praticamente tudo o que propõe.
Baseado em um argumento original do roteirista Matthew Robinson, "A Última Casa" trata de uma chuva misteriosa que deixa Jason (Wagner Moura) e Ann (Greta Lee) presos em sua casa com seus dois filhos, Ruth (Riley Chung) e Graham (Noah Alexander Sosnowski). Até onde eles conseguem enxergar, todas as casas da vizinhança estão na mesma situação. Será o país todo? O planeta todo?
Não é necessário sequer assistir a "A Última Casa" para estabelecer um paralelo com a pandemia da Covid-19, porém quanto mais o roteiro ensaia as analogias, mais aleatórias elas parecem. A mitologia em torno do conceito, que vai ganhando forma visual a partir da segunda metade, é uma salada de tantas coisas já vistas que qualquer metáfora vai pelos ares. Ou, nesse caso, pelo ralo.
Para todas as perguntas levantadas, as respostas do filme são banais e às vezes até oferecidas de bandeja já na primeira hora. Diretor de ação de filmes como "Fúria de Titãs" e "Velozes e Furiosos 10", Louis Leterrier não confere ao longa qualquer tato para o mistério, para a construção gradual do suspense ou mesmo para o drama básico de pais e filhos. Sua condução é afobada, confusa, hiperativa, como se estivesse sempre dirigindo uma vinheta de passagem de tempo.
A falta de respiros da montagem de "A Última Casa" (assinada por Adam Gough, indicado ao Oscar por "Roma", vai entender...) se faz notar já na cena de apresentação, em que o espectador é jogado na situação apocalíptica sem se familiarizar com nada. As possíveis soluções para o bom conceito são apresentadas logo de cara — e não sobra quase nada além do óbvio para se desdobrar por quase duas horas que vem pela frente.
É engraçado que a única coisa que Leterrier faz com alguma competência aqui é justamente a parte mais genérica: a do 'filme de criatura'. Não que seja propriamente bom ou tenha alguma singularidade, mas pelo menos encontra certa eficiência visual, uma vocação mínima de entretenimento, algo como "Guerra dos Mundos" na escala minimalista B de "Predadores Assassinos".
Afinal, o cineasta francês não filma uma única conversa íntima ou estabelece uma centelha de sutileza dramática sem parecer um edit do tiktok, tal qual havia feito no igualmente afobado "Truque de Mestre". Wagner e Greta nem precisavam de muita coisa para consolidar empatia na plateia, mas é visível como a direção sabota eles o tempo todo.
Talvez por conta de tudo isso que, quando o roteiro finalmente se entrega ao básico, no terceiro ato, "A Última Casa" se encontra em algum lugar sem passar a ideia de estar brigando com o material que tem em mãos. Pena que não seja o suficiente para resgatar os atores e a história de uma emboscada ainda mais traiçoeira do que aquela que os seres misteriosos armam para os protagonistas.