Daniel Nolasco promove cinema queer sem pudores no filme 'Apenas Coisas Boas', em cartaz no Recife
Filme protagonizado por Lucas Drummond e Liev Carlos, em cartaz no Cinema da Fundação, funciona melhor na estilização do que no drama
Publicado: 17/07/2026 às 17:23
Lucas Drummond é destaque no elenco da primeira parte de 'Apenas Coisas Boas' (Olhar Filmes/Divulgação)
Dura apenas alguns minutos para que “Apenas Coisas Boas”, em cartaz no Recife, no Cinema da Fundação, mostre a que veio para o espectador. O novo longa de ficção do Daniel Nolasco é uma estilização bastante autoral de códigos do cinema de gênero norte-americano a partir de uma contemplação queer, que expõe vivências LGBTQIAPN+ e vem marcando a filmografia do diretor goiano, de “Vento Seco” (2020) e do curta “O Cavalo de Pedro” (2023). Formalmente sem nenhum pudor, o filme vem chamando atenção desde que estreou no festival Olhar de Cinema de Curitiba e entende-se o porquê.
O enredo é mínimo: Marcelo (Liev Carlos) sofre um acidente de moto no meio de uma estrada indefinida e fica desacordado. O resgate chega através do fazendeiro Antônio (Lucas Drummond), que o leva para sua casa e começa a tratar seus ferimentos. Sem muitas cerimônias, mas muita paciência para a construção de cada cena, eles começam a se envolver sexualmente — e então “Apenas Coisas Boas” se transforma em outra coisa.
Na contramão do naturalismo de tantas histórias queer contemporâneas, Daniel Nolasco está mais interessado na atmosfera visual do que em uma narrativa de causa ou consequência. Seu filme é propositalmente frio do ponto de vista dramático e, ainda que se beneficie das boas presenças dos dois atores principais e de caracterizações marcantes, perde força quando precisa trabalhar as ideias de melancolia, mistério e saudade a partir da segunda metade da duração.
Há planos excelentes no segundo bloco de "Apenas Coisas Boas", especialmente na fantasmagoria que eles evocam. O saldo sensorial, porém, fica comprometido por uma certa impessoalidade que contamina a movimentação sexual de algumas passagens. Essa encenação, justiça seja feita, é deliberada. Mas a consolidação do desejo como protagonista e motor do fino drama do primeiro ato prometia um engajamento que, infelizmente, o texto e a direção abandonam em função da imagem.
Ainda assim, é um exercício produtivo para a representação sexual LGBTQIAPN+ na tela do cinema comercial quando um diretor se permite explorar os corpos em uma abordagem plástica na qual o desejo em si é colocado em evidência. E defendido até os minutos finais.