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LITERATURA

Livro infantil pernambucano debate a sensibilidade dos meninos e estruturas de poder na família

Escritora pernambucana Gianni Gianni lança obra de ficção ilustrada por Suzane Lopes, debatendo o controle da dimensão sensível dos meninos

André Guerra

Publicado: 13/07/2026 às 06:00

"A criança tem uma forma muito honesta de confrontar aquilo que não parece fazer sentido ao seu redor", afirma a autora Gianni Gianni. (Foto: Ana Yoneda)

O simples comentário de um menino cheio de curiosidade e personalidade forte parece abalar as estruturas de uma casa. Tendo essa ideia como ponto de partida, o livro “Quem Manda Nesta Casa?” (PeraBook Editora), escrito por Gianni Gianni e ilustrado por Suzane Lopes, apenas aparenta simplicidade ao debater a infância dos meninos, o controle de sua dimensão sensível, o tolhimento de certas emoções e, ainda, as dinâmicas domésticas de diferentes gerações. Na prática, revela diversos outros temas sem explicitá-los diretamente.

A ficção é ambientada na Zona da Mata de Pernambuco e acompanha Naldo, um garoto ansioso por tomar banho no riachinho perto da casa dos avós, aos quais precisa convencer a deixá-lo ir sozinho. A avó é conhecida pela brabeza, enquanto o avô é visto por ele como manso e permissivo. A inversão desses papéis gera uma estranheza que se torna a razão de ser da obra, cujo lançamento terá um evento especial no Recife, no dia 25 de julho, na Livraria Pó de Estrelas (Poço da Panela), às 15h, com a presença da autora e um bate-papo mediado pela escritora Bell Puã.

Em entrevista ao Diario, Gianni conta que a história nasceu da combinação entre uma história de infância de seu pai, que cresceu na cidade de Palmares, e algumas experiências de artistas homens que escutou para produzir uma reportagem, em 2021, para a Revista Continente. “Meu pai empresta seu apelido ao protagonista, mas toda a trama é fruto da minha observação da sociabilidade dos meninos”, destaca a autora.

Gianni comenta ainda sobre os temas que palpitam na superfície de “Quem Manda Nesta Casa?”, mas que, em função do público infantil e da proposta do projeto, não se concretizam em discurso. “Acredito que há diversas formas discursivas de incluir nossas lutas em nossas criações. Algumas vezes, essas formas são mais frontais; em outras, são mais conciliatórias”, explica.

“Eu exerço as duas, a depender do projeto. Aqui, é por meio do olhar de Naldo que são questionados os desequilíbrios de poder na família, a partilha de responsabilidades na criação dos pequenos e a censura à expressividade e à subjetividade dos meninos. É interessante quando isso vem de um protagonista criança, pois ele tem uma forma honesta, às vezes até crua, de confrontar aquilo que não parece fazer sentido”.

“Quem Manda Nesta Casa” tem ilustração de Suzane Lopes, em uma primeira parceria com a escritora. Gianni declara que, apesar das muitas trocas entre elas, a desenhista desenvolveu aquele universo com autonomia.

“O processo foi muito fluido. Ainda que não se trate de um álbum ilustrado, que é uma categoria específica na qual texto e imagem aparecem de forma mais equilibrada, eu sempre acho que as ilustrações trazem camadas narrativas importantes e que o ilustrador entra como um coautor no processo de feitura do livro”, diz. “Talvez o que eu ache mais gostoso nessa área que venho explorando é justamente esse viés da parceria com os ilustradores, a forma como a feitura do livro e mesmo da narrativa se torna ainda mais coletiva”, completa Gianni.

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