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CRÍTICA

Suspense turco ‘Salvação’, premiado na Berlinale, examina a semente dos conflitos religiosos

Filme vencedor do Urso de Prata mistura suspense, paranoia e tensão religiosa em uma aldeia remota da Turquia; em cartaz no Recife a partir desta quinta (9)

André Guerra

Publicado: 06/07/2026 às 06:00

Filme dirigido por Emir Alper conta a história de uma briga por território nas montanhas da Turquia /Pandora/Divulgação

Filme dirigido por Emir Alper conta a história de uma briga por território nas montanhas da Turquia (Pandora/Divulgação)

Uma antiga disputa territorial volta à tona quando um clã exilado, o povo Bazeri, regressa a uma aldeia remota, no alto das montanhas da Turquia. Mesut (Caner Cindoruk), irmão do líder local, que representa os Hazeran, começa a ter visões assustadoras, as quais acredita cegamente serem recados divinos de que precisa desafiar a liderança e assumir a dianteira da luta contra seus oponentes.

É da tensão religiosa que borbulha desse conflito que começa a se desmembrar o suspense de “Salvação”, filme turco vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, a Berlinale, e que entra em cartaz nesta quinta-feira no Cinema da Fundação.

Dirigido pelo turco Emin Alper, mais conhecido por “Dias Ardentes” (2022), este thriller dramático toma emprestados diversos elementos do horror sobrenatural menos para abraçar o gênero e mais para estabelecer a paranoia daqueles personagens. Algumas das imagens e situações que acometem Mesut, registradas pela câmera como entidades presentes em cada canto do vilarejo, ajudam a compreender o estado mental que dá origem aos mais perturbadores tipos de intolerância.

Testemunhar a consolidação de um ideal genocida é, afinal, mais aterrorizante do que qualquer sugestão fantasiosa presente em “Salvação”. O filme examina, de forma desoladora, a maneira como grupos, que aqui levam nomes ficcionais, começam a encontrar desculpas das mais diversas naturezas para se odiarem. A caracterização dos personagens e do vilarejo, porém, é tão verdadeira em suas texturas e dimensão espacial que o longa nunca adquire um aspecto meramente alegórico.

A alternância entre os rigorosos planos abertos, que colocam céu e terra em oposição, e os quadros fechados nos personagens — em particular no rosto sempre tensionado do excelente ator Caner Cindoruk — intensifica o crescimento gradual da atmosfera opressiva do filme. O diretor nem sempre evita repetir seus artifícios de paranoia durante a primeira metade e, por isso, “Salvação” às vezes parece enguiçado.

A escalada dos conflitos humanos que desemboca na chocante sequência final, no entanto, revela-se a razão de ser da obra. Assistir à violência conjugada na tela sem espetacularização, mas revelada pelo olhar implacável da direção, é incômodo. Sobretudo quando nos lembramos da quantidade de lugares no planeta que, cada um a seu modo, seguem reproduzindo a mesma lógica belicista.

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