Milly Alcock se esforça, mas não consegue salvar ‘Supergirl’ da banalidade
Carisma de Milly Alcock tenta dar vida a ‘Supergirl’, filme com cenários genéricos e conflitos datados que tem pouco a acrescentar ao recém-chegado Universo DC, de James Gunn
Publicado: 24/06/2026 às 13:00
(Warner/Divulgação)
Para quase todos os filmes de super-herói do período pós-pandemia, o maior vilão tem sido o contexto de saturação. Nos últimos três anos, na verdade, de defasagem mesmo. Não há como precisar, mas tivesse sido lançado há cerca de uma década, “Supergirl” talvez fosse uma experiência menos banal e derivativa. Visto sob as lentes de 2026, no entanto, o longa que dá continuidade ao Universo DC, iniciado com “Superman” em 2025, parece um esforço de barulho e movimento para compensar a falta de imaginação visual e narrativa.
Baseada na HQ “Supergirl: Mulher do Amanhã”, a trama segue Kara Zor-El (Milly Alcock) vivendo uma vida de amargura e instabilidade emocional, cercada por bebida e desmotivação. O encontro da kryptoniana com uma menina de 14 anos chamada Ruthye Marie Knoll (Eve Ridley) — sedenta por vingar a morte de seus pais, causada pelo mercenário Krem (Matthias Schoenaerts) — dá início a uma saga cósmica em que até a vida de Krypto, o supercão alienígena, está com os dias contados após ser atingido por um veneno mortal.
Apesar da relação de amizade entre Kara e Ruthye não guardar sequer um traço de originalidade, são perceptíveis os esforços de Alcock e Ridley para driblar o esquematismo do roteiro e conferir espontaneidade à entrega emocional da dupla. A direção de Craig Gillespie (de “Eu, Tonya” e “Cruella”) não força o excesso de humor esperto nos diálogos — característica que tende a pasteurizar ainda mais os trabalhos do gênero —, o que ajuda a manter a plateia investida no conflito das duas protagonistas, isoladamente e em conjunto.
Infelizmente, a concepção de arte de “Supergirl” tem ainda menos singularidade do que o drama. À parte algumas criaturas grotescas que parecem saídas dos planetas mais sombrios de “Star Wars”, nada na estética dos cenários, das naves ou dos figurinos carrega identidade própria, encantamento ou mesmo um assombro particular.
Os planos mais abertos quase sempre passam a impressão de imagem generativa, sobretudo na sequência final de ação. Ao passo que as (muitas) cenas de pancadaria em locações escuras são rodadas em quadros tão fechados, com tantos cortes, que poluem a vista antes de começarem a empolgar.
Jason Momoa, no papel do caçador de recompensas Lobo, é um alívio de organicidade no filme, talvez pela naturalidade com que o ator interpreta esse tipo de personagem. É difícil afirmar se ele faria bem a “Supergirl” caso ganhasse mais tempo de tela, já que uma das suas qualidades no longa é justamente a praticidade com que entra e sai. Matthias Schoenaerts não faz feio no papel do vilão, mas escapar de uma caracterização tão genérica e de motivações tão desinteressantes quanto essas é uma luta de Davi contra Golias. E aqui, todos assumem cedo que vão perder.
Em “Superman”, James Gunn conseguiu se safar da fadiga dos super-heróis porque, além de sua expansividade visual e da parceria luminosa com David Corenswet, encontrou um equilíbrio entre a inocência inerente ao personagem e os hiperestímulos contemporâneos. Para os fãs, de modo geral, foi uma festa. Sobrou pouco do bolo de kryptonita, porém, para “Supergirl”, que termina como uma sombra quase transparente de um universo que acabou de começar, mas já dispara um alerta.