‘Toy Story 5’ propõe conciliação entre tecnologia e brincadeiras à moda antiga; é possível?
Com sessões a partir desta quarta (17), ‘Toy Story 5’ traz Jessie, Buzz e Woody disputando a preferência das crianças com uma telas portátil — a ameaça mais desafiadora aos brinquedos desde o começo da saga
Publicado: 16/06/2026 às 05:00
Jessie e seu cavalo Bala no Alvo lideram a missão de salvar sua dona, Bunny, do controle de Lilypad, principal antagonista da trama (Disney/Divulgação)
Entre as possíveis explicações para “Toy Story” conseguir atravessar as décadas imune à obsolescência está a universalidade do tema. Desde o filme original, pioneiro entre os longas da Pixar e lançado em 1995, cada capítulo tem sido uma variação da ideia de que os brinquedos caem sempre no esquecimento; da dor de ser deixado para trás com a mudança dos tempos. Ao trazer a tecnologia digital e a epidemia de telas para o centro do debate, no entanto, “Toy Story 5” intensifica essa disputa entre o antigo e o novo de forma alarmista.
Neste quinto filme, em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (18) — com sessões de pré-estreia já na quarta (17) — Jessie, Buzz e os demais brinquedos que estão morando com a pequena Bunny desde o final de “Toy Story 3” tentam ajudar a dona a fazer amigos. Numa visita ao telhado, porém, eles percebem a razão da menina estar tão sozinha: das janelas, é possível enxergar que todas as crianças da vizinhança agora têm um mesmo modelo infantil de tela portátil. Quando os pais de Bunny lhe dão de presente um desses dispositivos, os bonecos tradicionais precisam lidar com a Lilypad, talvez a ameaça mais demolidora que já enfrentaram.
Protagonista da franquia desde o original, Woody, que foi viver longe da Bunny no quarto filme, tem um papel de coadjuvante dessa vez e cede lugar para a boneca vaqueira. Desde sua primeira aparição na segunda obra da franquia, Jessie só reforçou ser a mais emotiva e determinada personagem de “Toy Story”. Diante de uma antagonista tão insidiosa quanto Lilypad, seu ímpeto de se sentir amada novamente e de recuperar o poder de imaginação de sua criança se torna maior do que nunca.
Mais pedagógico do que qualquer incursão da saga até aqui, “Toy Story 5” é sóbrio e pertinente em quase todas as suas reflexões. Veterano na Pixar e conhecido por alguns de seus maiores clássicos, como “Procurando Nemo” e “Wall-E”, o diretor e roteirista Andrew Stanton explora os perigos da superexposição dos pequenos às telas sem vilanizar a tecnologia em si. A narrativa sabe que não há fuga dos aparelhos em questão, já bem mais evoluídos e preocupantes na vida real, mas discute de maneira tragicômica as consequências do seu uso desregrado.
A adultização das crianças, os sintomas prematuros de depressão, a ansiedade digital e a dificuldade de interação social são tópicos sensíveis que a trama articula muito bem com a ação frenética. Sem querer comprar briga com ninguém, por outro lado, Stanton ignora os principais responsáveis nesses processos complexos deflagrados pela tecnologia — neste caso, sobretudo os pais de Bunny.
Não era o caso de apontar o dedo, mesmo porque o problema é muito mais profundo do que a negligência paterna, mas “Divertida Mente” provou, em 2015, que é mais do que possível encarar de frente as faltas e omissões dos adultos em uma produção infantil.
À parte as concessões conciliadoras que um filme da Disney, feito para a maior plateia possível, precisa fazer, “Toy Story 5” encontra saídas excelentes para justificar o avanço da franquia. Investir nos desdobramentos do digital era tema obrigatório a essa altura e que, além de proporcionar urgência à animação, acaba refletindo como todos os outros filmes, na essência, são exatamente sobre a mesma coisa.
Agora, no entanto, o peso é praticamente distópico. Em 1995, um boneco preferido era substituído com a chegada de um novo; anos depois, o simples crescimento de Andy, em 2010, levava ao abandono dos brinquedos. Para esses casos anteriores, porém, a solução parecia prática ou, pelo menos, visível no horizonte. Em “Toy Story 5”, ela não existe. E, para o filme, é melhor se conformar e saber lidar com a intromissão das telas do que enfrentá-las.