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Após reformas, Museu da Abolição reabre totalmente com exposições que reforçam o protagonismo negro

Museu da Abolição, no bairro da Madalena, lança as exposições ‘Que Herança Você Vai Poder’ e ‘Restituir o Possível’, que reabrem os projetos museográficos do equipamento nesta segunda-feira

André Guerra

Publicado: 15/06/2026 às 06:00

Museu passou por reformas estruturais entre 2020 e 2022, recebendo pela primeira vez um projeto museográfico desde sua reabertura/Divulgação

Museu passou por reformas estruturais entre 2020 e 2022, recebendo pela primeira vez um projeto museográfico desde sua reabertura (Divulgação)

Restaurando a importância da valorização de uma memória basilar na identidade brasileira, o Museu da Abolição (MAB), no bairro da Madalena, no Recife, realiza, nesta segunda-feira (15), sua reabertura completa. Após uma reforma que começou oficialmente em 2020 e terminou a etapa estrutural em 2022, o espaço voltou parcialmente às suas atividades, mas agora, com as exposições “Que herança você vai poder?” e “Restituir o Possível”, volta à atividade total apresentando um projeto que reitera sua missão institucional e a relevância de seu acervo. A visitação gratuita, disponível a partir do da terça-feira (16), estará aberta sempre de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos sábados, das 13h às 17h.

Tombado em 1966 como patrimônio nacional, o Sobrado Grande da Madalena teve seu jardim revitalizado, ganhou um novo projeto paisagístico e uma arena de eventos coberta na área externa. “A etapa da museografia foi a que ficou faltando e acabou demorando um pouco mais por conta de todo o processo de licitação, mas agora estamos plenamente de volta”, explica a museóloga Daiane Silva Carvalho, em entrevista ao Diario.

“É um momento novo do MAB, que reforça nosso diálogo constante com diferentes visitantes e nosso compromisso com a participação social desse espaço, que preza tanto pela valorização da memória”, complementa.

A exposição “Que herança você vai poder?” reflete sobre o que restou, de fato, após 1888. O trabalho, que tem curadoria de Alex de Jesus, reforça como a Lei Áurea, que formalizou a abolição da escravatura, não ofereceu políticas de inclusão, acesso e reparação aos mais de 700 mil negros que foram libertos. “Foi feita toda uma jornada para discutir esse projeto, mas a reorganização promovida por essas conversas trouxe a ideia de mostrar as consequências daquilo que dá nome ao museu. Precisamos debater movimentos de resistência e de equidade do negro para o próprio negro e falar do protagonismo dele em suas lutas ao longo da história”, acrescenta Daiane.

O racismo estrutural, escondido sob supostas qualidades, é um dos assuntos trazidos pela mostra, que reúne artistas como biarritzzz, Tiago Sant’Ana, Caetano Dias, Yanne Mendes, Paula Trojany, Tiganá Santana e o coletivo Frente 3 de Fevereiro.

Já a exposição “Restituir o Possível” é fruto do próprio acervo do MAB, o Acervo Africano, que possui 109 objetos de cultura material recebidos da Receita Federal a partir da Lei nº 12.840/2013 (que dispõe sobre a destinação dos bens de valor cultural, artístico ou histórico aos museus, nas hipóteses que descreve). “Desde que recebemos, viemos fazendo uma pesquisa e chegamos a fazer uma primeira mostra em 2019. Quando surgiu a oportunidade de fazer uma temporária para o térreo, achamos que seria o ideal”, narra a museóloga.

A mostra registra sobretudo como o colonialismo deslocou e reconfigurou várias formas, tentando reduzi-las ao longo do tempo, mas as práticas, corpos e criações negras contemporâneas mantêm viva a alma delas. Grande parte das obras permaneceu resguardada na reserva técnica e, agora, o projeto revela parte desse patrimônio e amplia a inserção do MAB no debate internacional sobre a restituição de bens culturais africanos.

A diretora substituta do MAB, Fabiana de Lima Sales, salienta que este momento reforça a missão central do equipamento cultural. “O museu não estava fechado. Ele seguiu ativo para mostras e atividades diversas, mas celebramos agora um olhar atento para o acervo, e essas duas exposições são grandes exemplos”, afirma.

“Quase 40 anos depois de inaugurado o museu, essa é a primeira vez que teremos um acervo tão expressivo de artistas negros trazendo essa perspectiva pós-abolicionista. Para o museu, já é um marco e tanto”, adiciona Daiane, destacando o enfrentamento da historiografia oficial representado pelo MAB.

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