'Olhe Para Mim' subverte estruturas do cinema para debater identidade e luto
Longa de Rafhael Barbosa reconstrói a linguagem cinematográfica através do misticismo, da estética queer e da lógica do sonho
Publicado: 08/06/2026 às 20:51
Ulisses Artur vive o protagonista Marcelo em 'Olhe Pra Mim' (Foto: Vanessa Mota)
Assumir a contramão de uma indústria cinematográfica que insiste em mastigar suas ideias é um risco artístico que o longa "Olhe Para Mim" abraça sem hesitar. Consciente que a quebra de estruturas tradicionais frequentemente atrai a pecha de "narrativa confusa", a produção dirigida pelo cineasta alagoano Rafhael Barbosa, selecionada para a Mostra Competitiva de Longas do 15º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, prefere o enigma à obviedade.
O resultado é um pacto de confiança com o público, que deixa o papel de mero espectador para se tornar coautor ativo de uma experiência onírica, que, no entanto, nunca se perde nas próprias subjetividades.
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Esse convite ao inconsciente se desdobra através da história de Marcelo, vivido por Ulisses Arthur, cujo passado é marcado pelo sumiço inexplicável de sua mãe durante uma festividade religiosa na infância. Uma década depois, incapaz de superar o trauma, o jovem vive imerso em projeções mágicas e visitas a cemitérios.
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O ponto de virada acontece quando seu caminho se cruza com o de Sandra (Rejane Faria) e seu filho Ivan (Luciano Pedro Jr), dois andarilhos misteriosos que o arrastam para uma jornada espiritual e mística, onde a realidade se dissolve por completo.
Na prática, o filme se resolve no campo visual. Há um desapego das amarras literárias e dos ganchos tradicionais de roteiro, deixando o olhar do espectador livre e autossuficiente para absorver a experiência, sem que a obra perca a assinatura deixada pelo diretor. “Era importante que alguns sentimentos chegassem às pessoas. Encontrar esse equilíbrio foi difícil. Eu tinha medo de fazer um filme confuso”, admite Rafhael Barbosa.
O elenco conta ainda com a atriz e performer pernambucana Aura do Nascimento (Salomé), que interpreta três personagens no filme, entre eles a Rasga-Mortalha. Inspirada no folclore popular, ela materializa uma das várias facetas da mãe do protagonista através de uma figura mística, meio humana e meio pássaro. “Sempre que o filme faz emergir uma força estranha, ela se revela bela, e não medonha”, afirma Aura.
Mesmo bebendo na fonte do terror e nas memórias de infância do diretor ligadas a Stephen King, o filme se afirma como um projeto queer. Assim, o estranhamento gerado por essas criaturas híbridas deixa de ser uma ameaça e vira uma celebração da identidade do outro.
Transitando entre o terror, o sincretismo religioso e as forças da natureza, o filme usa diferentes linguagens e mitos para construir pontes, e não barreiras, entre os personagens. O gesto é importante porque, ao contrário de produções que ligam a vivência queer estritamente ao trauma e à violência, “Olhe Pra Mim” escolhe o acolhimento como resposta diante do desconhecido.
Nesse sentido, a fala de um dos personagens de que “sonhar é tão importante quanto estar acordado” surge como um lembrete afetuoso: o sonho é o primeiro passo para construirmos realidades mais acolhedoras.
*O jornalista viajou a convite do festival Olhar de Cinema