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Na rotina de uma companhia de teatro, 'Telúrica, a Íntima Utopia' questiona os rumos da existência humana

Em "Telúrica, a Íntima Utopia", seu segundo longa-metragem na carreira, Mariana Lacerda dá voz às memórias e sonhos dos artistas da Cia. Teatral Ueinzz

Allan Lopes

Publicado: 06/06/2026 às 17:53

Ensaios da peça

Ensaios da peça "Telúrica" foram registrados no documentário (Foto: Divulgação)

Formada por artistas com trajetórias marcadas por experiências e dissidências psíquicas, a Cia. Teatral Ueinzz é o tema do documentário "Telúrica, a Íntima Utopia", dirigido pela cineasta pernambucana Mariana Lacerda, que mostra como o bem-estar e a vulnerabilidade mental podem coexistir a partir da construção de refúgios diários de escuta e afeto.

Nele, o ensaio de uma peça torna-se o ponto de partida para que outros universos ganhem vida. Entre divagações sobre seres ancestrais e o fim do mundo, os integrantes transformam o palco em um espaço de pura sobrevivência afetiva.

Selecionado para a Mostra Competitiva de Longas da 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, o filme recusa os caminhos óbvios. Em vez de esmiuçar a condição mental de cada ator ou buscar justificativas para sua presença no palco, o longa abre espaço na tela para que suas subjetividades, dores e reflexões mais sinceras sobre a vida ganhem o direito de simplesmente ser e estar no mundo.

Dessa forma, a lente de Mariana Lacerda mira precisamente a potência desse ecossistema coletivo, fundamental para sustentar a individualidade de cada um, resultando em uma obra que comoveu e emocionou o público do festival.

“Telúrica, Íntima Utopia” é o segundo longa da realizadora, cuja trajetória é marcada pela interseção entre cinema, artes visuais e ecologia política. Autora de títulos como “Mapear Mundos (2024) e do premiado "Gyuri" (2020) — em que investiga-se o encontro entre a fotógrafa Claudia Andujar e o povo Yanomami —, Mariana traz para este novo projeto sua habitual sensibilidade para filmar o Antropoceno (a época geológica atual, caracterizada pelo impacto profundo e destrutivo das ações humanas sobre a Terra) e as relações de coexistência. "O que fizemos foi ampliar o espaço de reflexão sobre esses temas a partir da vida de cada um”, explica a diretora em entrevista ao Diario.

A obra nasceu do desejo de Mariana Lacerda de encontrar um ator húngaro para participar de “Gyuri”. Nessa busca, a cineasta acabou cruzando o caminho do filósofo Peter Pál Pelbart, um dos integrantes da Cia. Teatral Ueinzz, culminando no registro íntimo do espetáculo “Telúrica” que a trupe já desenvolvia.

O título do filme conecta-se diretamente a esse sentido do telúrico — termo derivado do latim Tellus, que tanto nomeia o chão que pisamos quanto personifica o próprio planeta Terra. “A peça aborda temas sobre os quais sinto necessidade de pensar: as questões da Terra, com letra maiúscula, e da terra, com letra minúscula; o fim do mundo e o capitalismo”, diz Mariana.

A convivência gradual, iniciada com o uso de celulares em vez de câmeras profissionais, consolidou a confiança necessária para que o elenco abrisse o coração . “O filme me fez enxergar as atrizes e os atores de um jeito que eu ainda não tinha visto, além de perceber outros lados meus, porque é muito diferente se ver na tela”, conta Elisa Band, diretora e dramaturga da Cia. Ueinzz.

Na obra, fica evidente que o coletivo não é um espaço que acolhe as diferenças, mas sim um organismo gerado por elas. "Essas reflexões já existem no nosso cotidiano, mas de forma mais sutil e enxuta. Em determinados momentos, abrimos espaço para essa metabolização coletiva”, comenta Elisa. É aí que nasce a utopia defendida pelo filme. Em vez de projetar um mundo idealizado e distante, o longa registra um espaço onde a sobrevivência coletiva acontece em tempo real.

*O jornalista viajou a convite do festival Olhar de Cinema

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