Única língua indígena viva do Nordeste ganha força com projeto audiovisual em Pernambuco
Pesquisa desenvolvida na Aldeia Fulni-ô, em Águas Belas, no Agreste de Pernambuco, utiliza cinema como instrumento de fortalecimento cultural e ensino da língua Yaathe
Publicado: 12/06/2026 às 18:01
(Foto: Mateus Guedes)
O audiovisual vira ferramenta de construção de ensino e preservação da cultura no Agreste de Pernambuco, através de uma iniciativa que revela a única língua indígena viva do Nordeste brasileiro fora da Amazônia: o Yaathe. Por meio de uma videoaula produzida dentro da própria comunidade da Aldeia Fulni-ô, no município de Águas Belas, os pequenos podem vivenciar práticas de letramento no idioma a partir de uma linguagem mais próxima de suas experiências. E isso é apenas parte do projeto YAATHE, desenvolvido por Mateus Guedes e Fábia Fulni-ô.
A urgência de fazer com que a língua volte a ser parte da identidade cultural do povo Fulni-ô motivou um intenso trabalho de pesquisa, que promete ser apenas um ponto de partida. “A partir da recepção que tivemos na Aldeia, podemos perceber os frutos desse trabalho sendo colhidos. Essa forma de letramento utilizando audiovisual já está despertando interesse nas lideranças locais para que outras iniciativas possam surgir”, destaca Mateus, que também é diretor e roteirista, em entrevista ao Diario.
Embora haja cerca de sete mil pessoas pertencentes ao povo Fulni-ô em Águas Belas, estima-se que apenas 500 sejam fluentes em Yaathe. A língua sobreviveu a séculos de tentativa de apagamento e até proibições, durante o século 20.
Agora, o audiovisual tem a chance de transformar essa realidade, já que Mateus e Fábia reuniram cinema, música, design, ilustração e motion graphics em um objetivo pedagógico dentro da comunidade. “Diferente dos formatos tradicionais de ensino, o material aposta em elementos visuais, trilhas sonoras originais”, destaca o diretor. “As ações também funcionaram como espaço de escuta e observação metodológica, permitindo que o próprio projeto fosse ajustado. Mais do que ensinar as palavras e suas traduções, o projeto busca fortalecer vínculos afetivos, memória coletiva e pertencimento cultural”, enfatiza Mateus.
A iniciativa realizou ações nas escolas da aldeia como contrapartida social. Foram promovidas aulas experimentais na Escola Indígena Fulni-ô Marechal Rondon, nas unidades de Ensino Fundamental e Ensino Médio, em parceria com Fábia Fulni-ô, Hugo Fulni-ô e Waya Fulni-ô, integrantes da produção local. As atividades foram conduzidas pelo professor Riury Marques de Melo, integrante do corpo docente da comunidade. Os estudantes tiveram acesso aos conteúdos produzidos ao longo da pesquisa através de uma estrutura de projeção e som montada especialmente para as exibições.