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Filme 'Minotaur' injeta tensão e dúvidas na reta final da corrida pela Palma de Ouro em Cannes

Dirigido por Andrey Zvyagintsev (indicado ao Oscar por 'Sem Amor'), filme russo 'Minotaur' foi um dos mais elogiados de uma competição apertada e imprevisível no 79º Festival de Cannes

André Guerra - Enviado Especial

Publicado: 21/05/2026 às 22:15

Thriller dramático faz paralelo entre ruína moral do país e da instituição familiar/Divulgação

Thriller dramático faz paralelo entre ruína moral do país e da instituição familiar (Divulgação)

CANNES - Mesclando um drama familiar com o cenário político complexo da Rússia, o thriller de humor seco “Minotaur” se tornou mais um forte candidato à Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes. A 79ª edição do evento, que ocorre na Riviera Francesa, chega ao fim neste sábado (23), com a revelação dos premiados.

Dirigido pelo indicado ao Oscar Andrey Zvyagintsev (de “Sem Amor”), “Minotaur” se passa em 2022, durante a invasão da Ucrânia, e trata de um empresário rico e influente de uma cidade pacata que começa a desconfiar de que sua esposa tem um amante. A tensão do ambiente de trabalho vaza para o mundo doméstico e, gradualmente, o clima entre o casal se altera entre total indiferença para apreensão de que algo terrível está prestes a acontecer.

Após mais de uma hora de construção dessa atmosfera gélida que rege a vida dos protagonistas, Zvyagintsev torna “Minotaur” um filme bem mais reconhecível do ponto de vista comercial. Ao mesmo tempo, mais estranho e absurdo. Toda a segunda metade é simultaneamente mais pesada e tragicamente cômica — uma combinação fatalista que, nos últimos anos, o Festival de Cannes tem reconhecido com veemência (dadas as vitórias de filmes como "Parasita", "Titane", "Triângulo da Tristeza" e "Anatomia de uma Queda")

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em “Minotaur”, não é exatamente um pano de fundo, já que é nítida a ambição do cineasta em correlacionar a falência moral do Estado com a ruína da instituição familiar. A ideia de correlacionar o contexto político com uma história convencional de traição e vingança funciona justamente pelo senso de humor mordaz com que o filme resolve as situações.

Existe também uma sensação de resignação presente na concepção geral do longa. Um clima generalizado de niilismo que, em alguma medida, já se esgotou um pouco nos grandes festivais de cinema. A poderosa última imagem do filme clama por uma impressão de grandeza que, comumente, nesses casos, aspiram uma carga de significado que não necessariamente estão ali.

O ator Dmitriy Mazurov, que interpreta o protagonista, se encaixa perfeitamente na posição de masculinidade travada pela natureza de seu trabalho, frio e estratégico. Iris Lebedeva, como Galina, a esposa, está, na maior parte do tempo, enquadrada à distância, mas em lugares fechados e opressores.

“Minotaur” está longe de ser uma obra convidativa e agradável, mas parece improvável que sua pompa formal e temática não conquiste ao menos um prêmio — especialmente em um estado de coisas tão alarmante quanto este.

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