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Com Sebastian Stan, 'Fjord' se destaca pelo tema mais urgente do Festival de Cannes

"Fjord", do romeno Cristian Mungiu, é protagonizado pelos indicados ao Oscar Sebastian Stan e Renate Reinsve e já lidera o status de filme tematicamente mais forte da disputa pela Palma de Ouro em Cannes

André Guerra - Enviado Especial

Publicado: 20/05/2026 às 11:32

"Fjord" retrata a mudança de uma família para o interior da Noruega, onde enfrenta tensões com a vizinhança (Divulgação)

CANNES - Nenhum filme da competição da 79ª edição do Festival de Cannes debate um assunto tão urgente e delicado quanto "Fjord". Sebastian Stan (o Soldado Invernal da Marvel e indicado ao Oscar por "O Aprendiz") e Renate Reinsve (indicada por "Valor Sentimental") lideram um elenco que conquistou elogios da crítica e levantou apostas de favoritismo à Palma de Ouro, que será revelada neste sábado (23).

Dirigido pelo romeno Cristian Mungiu, vencedor do prêmio máximo em 2007 por "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", "Fjord" acompanha um casal romeno-norueguês radicalmente religioso que, ao se mudar para um vilarejo na Noruega, tem os filhos levados pelas autoridades após suspeitas de abuso e violência. Inicia-se, então, um processo investigativo que se revela cada vez mais complexo, especialmente quando novas informações sobre as crenças da família vêm à tona.

Mungiu não é estranho ao tratamento árduo de temas espinhosos. "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" tornou-se um marco do cinema romeno ao explorar a temática do aborto pela perspectiva dolorosa de uma personagem obrigada a se submeter a uma situação extrema, consequência da repressão do Estado em relação ao tema. No caso de "Fjord", as ambições do cineasta são maiores, tanto do ponto de vista estrutural quanto visual.

Em termos narrativos, Mungiu faz um trabalho impressionante ao manter o espectador preso à perspectiva da família acusada sem jamais assumir seu partido. Isso exige não apenas rigor formal (algo que ele definitivamente domina), mas sobretudo uma sobriedade notável para abordar um tópico sensível como esse sem relativizar a violência. A humanidade das interpretações de Reinsve e Stan é central na ambígua relação que a plateia constrói com esses personagens — ele, com sua expressão séria e gestos agressivos, se destaca.

Por outro lado, "Fjord" não cai no esquematismo de defender cegamente o intervencionismo excessivo por parte do órgão independente que retira dos pais a custódia das crianças — incluindo um bebê de colo — antes mesmo do início das investigações. Em tempos de discussões tão acaloradas sobre os limites da liberdade de expressão e religiosa, o roteiro de Cristian Mungiu procura questionar tudo e todos, deixando claro seu ponto de vista justamente por meio do poder dialético das cenas.

Formalmente, sua câmera se move apenas quando necessário e tenta resolver todas as cenas com o mínimo de planos possível. Quando o clima exige, como na excelente sequência final, o diretor trabalha com uma montagem sutilmente mais acelerada, sem abrir mão da paciência que caracteriza tão bem seu cinema.

A julgar pela urgência do assunto e pela lucidez da abordagem, "Fjord" deve deixar o Festival de Cannes com ao menos um dos grandes prêmios da competição. E o diretor romeno tem grandes chances de se tornar um dos poucos cineastas da história a conquistar uma segunda Palma de Ouro em menos de 20 anos, ao lado de nomes como Francis Ford Coppola ("A Conversação" e "Apocalypse Now"), Ruben Östlund ("The Square" e "Triângulo da Tristeza"), os Irmãos Dardenne ("Rosetta" e "O Filho"), Michele Haneke ("A Fita Branca" e "Amor") e Ken Loach ("Brisa de Mudança" e "Eu, Daniel Blake").

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