Pedro Almodóvar volta a meditar sobre sua crise criativa no morno 'Natal Amargo', exibido em Cannes
Longa de Pedro Almodóvar lançado na competição do 79º Festival de Cannes, 'Natal Amargo' tem narrativa burocrática e fica aquém dos grandes trabalhos do realizador espanhol
André Guerra - Enviado Especial
Publicado: 20/05/2026 às 18:58
Barbara Lennie e Victoria Luengo em 'Natal Amargo', que estreia nos cinemas brasileiros no dia 28 de maio (Warner/Divulgação)
CANNES - Elegância visual, requinte de produção e elencos fotogênicos não faltam aos últimos filmes do mais celebrado cineasta espanhol de sua geração. Era esperado, portanto, que "Natal Amargo", de Pedro Almodóvar, tivesse todas essas qualidades — e ele, de fato, as tem. A sensação que ficou ao final da sessão de estreia do filme no Festival de Cannes, porém, foi mais de frustração do que de qualquer satisfação pontual que a obra seja capaz de proporcionar.
Com estreia no Brasil confirmada para 28 de maio, "Natal Amargo" foi exibido na competição principal do evento na Riviera Francesa, marcando a oitava vez que o diretor concorre à Palma de Ouro. Consagrado duas vezes no Oscar — primeiro com o troféu de Melhor Filme Internacional por "Tudo sobre Minha Mãe" e, depois, com o de Melhor Roteiro Original por "Fale com Ela" —, Almodóvar nunca conquistou o cobiçado prêmio máximo do Festival de Cannes, embora seus filmes tenham sido, em geral, muito bem recebidos pela crítica.
É impossível prever a decisão de um júri (presidido neste ano pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook). Mas, dado o cenário desta edição, não parece que este será o projeto que dará a Palma ao realizador, que já levou a Cannes longas memoráveis em outras ocasiões, como "Carne Trêmula", "Volver" e "A Pele que Habito".
AUTORREFLEXÃO
"Natal Amargo" possui duas camadas de ficção: a primeira mostra o cineasta Raúl (vivido por Leonardo Sbaraglia) desenvolvendo um roteiro sobre Elsa (Bárbara Lennie). A segunda, que se torna a linha narrativa principal, acompanha a própria Elsa, uma diretora frustrada com seus fracassos e que concentra seus esforços em ganhar dinheiro com publicidade.
O roteiro segue os passos semiautobiográficos de Dor e Glória, que também trabalhava com a metalinguagem a partir de uma estrutura fragmentada. Apesar de compartilhar vários dos mesmos ingredientes, o resultado final de "Natal Amargo", infelizmente, faz justiça ao título.
Almodóvar busca refletir sobre sua própria crise criativa, enxertando o novo longa com hipóteses para sua suposta estagnação: a falta de financiamento para projetos originais, a dificuldade de converter prestígio em sucesso comercial, a pressão externa diante do nome construído, o peso do envelhecimento, entre outras ideias.
Por meio da magnética presença de Antonio Banderas, "Dor e Glória" conseguiu transformar alguns desses temas em uma jornada de introspecção franca e sensível. "Natal Amargo", por outro lado, parece quase sempre tatear em busca da própria coluna vertebral — sem jamais encontrá-la. O protagonismo de Elsa se perde rapidamente entre os coadjuvantes que surgem e desaparecem da trama (o interesse amoroso, uma amiga depressiva, a mãe), e nenhum deles realmente ganha vida.
RECONHECIMENTO DA CRISE
"Natal Amargo" acaba, desse modo, retomando os mesmos problemas de "Julieta", lançado na competição de Cannes há exatamente uma década. Desde então, diga-se, Almodóvar vem desperdiçando boas premissas em abordagens mais frias do que aquelas que consolidaram seu nome entre os anos 1980 — com clássicos como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" e "Matador" — e o começo dos anos 2000, período que marcou o ápice de seu reconhecimento autoral com "Fale com Ela" e "Má Educação".
Nos seus grandes momentos, Pedro Almodóvar não temia ir até as últimas consequências melodramáticas de seus enunciados. Seu último grande risco, o terror psicológico "A Pele que Habito", deixou uma marca geracional forte justamente porque relembrou o público do que o espanhol é capaz quando está inspirado e sem amarras.
Na verborragia de "Natal Amargo", no entanto, Almodóvar praticamente admite que não tem conseguido encontrar histórias que ecoem de maneira tão pessoal e intensa. Recorre, nesse caso, às próprias memórias, aos trabalhos anteriores e, fatalmente, à iconografia almodovariana tão reconhecível em qualquer lugar — as roupas em tons primários, especialmente o vermelho, e a trilha sonora intensa de cordas friccionadas.
Por mais sincero que seja seu pedido de desculpas em forma de filme à plateia, "Natal Amargo" soa como mais uma tentativa vã de redescobrir a própria essência.