"O que mais me motiva é provocar uma emoção na plateia", diz James Gray ao Diario, em Cannes
Diretor norte-americano James Gray e produtor brasileiro Rodrigo Teixeira falam sobre o suspense 'Paper Tiger', que disputa a Palma de Ouro em Cannes e marca a terceira colaboração entre eles
André Guerra - Enviado Especial
Publicado: 20/05/2026 às 18:52
Da esquerda para a direita: Raffaella Leone e Anthony Katagas (produtores), o ator Miles Teller, o diretor James Gray, o produtor Rodrigo Teixeira e o ator Adam Driver no tapete vermelho do Palais de Festivals, em Cannes, na Riviera Francesa (Foto: Soraya Ursine)
CANNES - Mais de 30 anos de atividade colocaram o diretor James Gray no panteão dos autores mais prestigiados da indústria. Com seu novo longa, o thriller 'Paper Tiger', protagonizado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, ele acaba de estrear na competição pela Palma de Ouro no 79º Festival de Cannes, marcando sua sexta participação na disputa pelo prêmio mais importante do cinema internacional.
Responsável por longas aclamados como o suspense policial 'Os Donos da Noite' (2007), o romance 'Amantes' (2008) e a aventura clássica 'Z: Cidade Perdida' (2017), o novaiorquino tem uma assinatura reconhecível na linguagem e nos temas. No começo da carreira, a atmosfera de suspense seus filmes, como 'Little Odessa' e 'The Yards', remete tanto ao cinema de máfia de Martin Scorsese quanto às tragédias familiares europeias mais melancólicas.
Em entrevista concedida ao Diario, em Cannes, James Gray afirma que todos os seus projetos partem do desejo de provocar uma reação emocional diferente na plateia. “A emoção, para mim, vem muito antes de qualquer premissa, contexto ou personagem. O que me vem à mente quando estou escrevendo um roteiro é, antes de tudo, que tipo de sensação eu pretendo explorar”, explica.
Ele cita ainda, durante a conversa, um de seus maiores mestres: “Alfred Hitchcock sempre dizia que a resposta sensorial da plateia é mais importante do que qualquer lógica interna da narrativa. A história nos prova que o impacto que as cenas deixam no espectador importa mais do que eventuais inconsistências na estrutura do enredo”.
Foi justamente quando uniu forças com o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira (indicado ao Oscar por 'Me Chame pelo Seu Nome' e 'Ainda Estou Aqui') que James Gray foi quase literalmente às estrelas. Os dois produziram juntos a ficção científica espacial 'Ad Astra' (2019), com Brad Pitt, que alçou ambos a uma escala comercial grandiosa. Na sequência, eles retornaram à infância do realizador no drama semiautobiográfico 'Armageddon Time' (2022).
Em 'Paper Tiger', que ainda não tem data de estreia no Brasil, Gray retorna ao clima de suspense que caracterizou sobretudo seus primeiros três filmes. Na trama, ambientada na Nova York de 1986, Gary (vivido por Adam Driver) e Irwin (Miles Teller) são dois irmãos bem diferentes. O primeiro é um policial de grande sucesso e personalidade expansiva; já o segundo é um homem comum do Queens, que vive com sua esposa Hester (Scarlett Johansson) e seus dois filhos pré-adolescentes. Quando Gary oferece ao irmão a oportunidade de um negócio irrecusável envolvendo a máfia russa, todos são colocados em grave perigo de vida.
A escalada de tensão do filme é gradual, mas implacável, culminando em um terceiro ato que está entre os grandes momentos da carreira do cineasta. Na entrevista, James Gray reforçou a dificuldade de manter a sensação de emergência de um suspense como esse ao longo das gravações. “Fazer cinema é sempre complicado e demorado. Mesmo uma filmagem breve vem acompanhada por uma pós-produção de oito ou nove meses”, pontua. “Conseguir forjar isso no set e manter essa tensão em alta no resultado final é o meu principal objetivo. E acho bom que a máquina do cinema tome seu tempo para que as coisas aconteçam e a criatividade floresça. Não sei se funcionaria de outro jeito”.
Rodrigo Teixeira enfatiza que trabalhar com o diretor norte-americano lhe proporcionou alguns dos maiores momentos da carreira. “Com ele, viajei para a Lua, Marte e Netuno. Nenhum outro produtor brasileiro teve essa experiência”, brinca, referindo-se a 'Ad Astra', e prossegue: “Voltei para um filme tão pessoal sobre dinâmicas familiares, com grandes atores, como Anthony Hopkins, Anne Hathaway e Jeremy Strong. E, com 'Paper Tiger', tivemos a oportunidade de realizar um tipo de filme que eu sempre sonhei em produzir. Para mim, esse é o filme de cujas performances mais me orgulho. E trabalho nesse ramo há três décadas”, ressalta o produtor.
Saia premiada ou não do Festival de Cannes, a mais nova parceria de James Gray com Rodrigo Teixeira já pode ser considerada um ápice na extensa filmografia de cada um deles.