‘All of a Sudden’, do diretor de ‘Drive My Car’, emociona na corrida pela Palma de Ouro
Coprodução entre Japão e França, 'All of a Sudden' recebeu 12 minutos de aplauso na sessão de estreia e já é um dos filmes mais aclamados na competição do Festival de Cannes
André Guerra - Enviado Especial
Publicado: 16/05/2026 às 15:50
Longa se tornou um dos favoritos para a Palma de Ouro, prêmio máximo do festival (Divulgação)
A repercussão morna de filmes como “Nagi Notes”, “A Woman’s Life” e “Histórias Paralelas” acendeu um alerta na competição do 79º Festival de Cannes 2026. Mas o amplamente aguardado “All of a Sudden”, dirigido pelo japonês Ryusuke Hamaguchi, veio para mudar esse cenário. O novo filme do vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2022, por "Drive My Car", recebeu pouco mais de 12 minutos de aplausos na sessão de estreia, tornando-se, até agora, o candidato mais forte à Palma de Ouro, ao lado do polonês “Fatherland”, que também conquistou a crítica internacional.
Coprodução entre Japão e França e majoritariamente falado em francês, “All of a Sudden”, que ainda não tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros, acompanha duas mulheres que se conhecem de maneira inesperada e rapidamente formam uma amizade intensa. Uma delas, Marie-Lou (Virginie Efira), é diretora de um asilo e tenta implementar uma nova forma de cuidado com seus pacientes, apesar da resistência de alguns membros da equipe. A outra, Mari Morisaki (Tao Okamoto), é uma dramaturga com câncer terminal e poucos meses de vida.
Assim como em "Drive My Car" e em outros trabalhos extraordinários, como "Wheel of Fortune and Fantasy" e "Evil Does Not Exist", este novo longa de Hamaguchi está menos interessado em grandes acontecimentos narrativos e mais em contemplar o fortalecimento gradual das relações. As mais de três horas de duração transcorrem ao longo de poucos dias, mas dois deles ocupam mais da metade da projeção, já que o cineasta dá todo o tempo necessário para que as conversas entre as protagonistas tornem seus espelhamentos totalmente críveis e orgânicos.
Mais do que em qualquer trabalho anterior de Hamaguchi, no entanto, “All of a Sudden” demonstra um apreço particular pelo processo. Todos sabem para onde a história está caminhando — e o que resta é observar a beleza de cada instante como se ele fosse eterno. O que chama atenção é que essa lógica do diretor vale tanto para as sequências mais leves, diurnas e abertas quanto para os longos discursos mais didáticos do filme.
Até mesmo a peça dirigida pela personagem de Tao Okamoto é mostrada quase em sua integridade, permitindo que a plateia observe, junto dos personagens presentes na cena, o poder transformador de cada um daqueles gestos sobre seus sentimentos.
O uso da música é sutilmente magistral em seu minimalismo: quase não há trilha sonora, o que faz com que o surgimento de uma simples melodia adquira o impacto de uma verdadeira orquestra emocional. O mesmo vale para a cinematografia, que, em uma cena-chave do terceiro ato, intensifica a saturação das cores pela primeira vez em mais de 180 minutos, gerando profunda angústia no espectador.
Poucos cineastas contemporâneos compreendem a força de um toque, de um abraço e de um olhar com a sensibilidade de Ryusuke Hamaguchi. “All of a Sudden” não apenas confirma seu status como um dos maiores autores da atualidade, mas também fortalece a ideia de que, em breve, ele será celebrado como um dos grandes mestres japoneses de sua geração.