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Documentário sobre história do quarto de empregada e sua relação com a senzala estreia no Recife

O documentário "Aqui Não Entra Luz", de Karol Maia, entra em cartaz no Cinema da Fundação, no Recife, amanhã. O filme conta a história do quarto de empregada e o diálogo entre o espaço e a senzala

André Guerra

Publicado: 13/05/2026 às 11:25

Imagem do documentário

Imagem do documentário "Aqui Não Entra Luz", de Karol Maia (Divulgação)

Retrato sensível de uma realidade escravocrata, o documentário “Aqui Não Entra Luz” chega ao Cinema da Fundação nesta quinta-feira (14) para discutir a posição do quarto de empregada na sociedade brasileira. Dirigido por Karol Maia, o filme revela que os esforços para a mudança desse cenário parecem, às vezes, iluminar a dor de tantas pessoas e famílias, mas muitas situações simplesmente não se alteram verdadeiramente: mudam de forma.

Concebido em meados de 2017 e com o início das rodagens apenas em 2019, o filme retrata cinco histórias de mulheres que trabalharam como domésticas em diferentes estados do Brasil. Seus relatos, profundamente humanos, por vezes carregados de humor, mas quase sempre dolorosos, expõem casos de violência, exploração e apagamento. Uma das falas mais marcantes vem justamente de uma personagem pernambucana, submetida durante muitos anos a uma relação de trabalho abusiva por parte de uma patroa pastora.

“A ideia surgiu do meu interesse em entender como a arquitetura do quarto de empregada dialogava com a da senzala. Queria compreender as dimensões físicas desse diálogo entre esses espaços, mas também a simbólica”, revela Karol Maia em entrevista ao Diario. “Meu objetivo era discutir essa dinâmica nos quatro estados que mais receberam mão de obra escravizada no Brasil: Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro”, afirma a diretora.

Apesar das especificidades do caso do cômodo, ele é certamente um dos que melhor explicitam a dor da perpetuação de um ciclo de tiranias que abarca tantas mães pelo país que, na tentativa de proporcionar um futuro diferente para seus filhos, acabam presas em ciladas ainda mais graves do que aquelas que buscavam evitar. Na Bahia, outra personagem questiona a razão de se fazer um documentário sobre esse tema: “Você queria descobrir se alguma coisa realmente mudou?”, pergunta. Ao aceitar os silêncios de cenas-chave e fazer com que cada uma dessas mulheres se sinta parte de uma escuta verdadeira, que lhes concede voz e imagem, “Aqui Não Entra Luz” se torna também um poderoso trabalho de pesquisa que foge do clichê de despejar dados facilmente esquecidos.

A prioridade da diretora está na abordagem sensorial, que não se limita às chamadas “cabeças falantes”. Ela demonstra sempre disposição para compreender a vida das pessoas que retrata — e, para tanto, sua câmera não raramente arrisca movimentos soltos e instintivos. “Chegamos a criar vários sons para o filme, para dar conta dessas personagens. Varremos chão, lavamos louça, andamos de salto, batemos porta, subimos escada. Tudo isso para reforçar essa ambiência sonora. E isso foi ainda mais elaborado na pós-produção”, explica a diretora.

Ao expor ao espectador, desde o início, sua experiência pessoal com o tema e, gradualmente, revelar a amplitude da questão, Karol Maia constrói um estudo simultaneamente objetivo e afetuoso sobre como a história com a qual sempre teve contato é, na verdade, duramente universal. “Gosto demais de encontrar os filhos de empregadas depois das sessões e ouvi-los sobre a experiência do filme. Eu também sou filha de uma trabalhadora doméstica, embora hoje ela não seja mais. E alguns tipos de memórias que eu coloco ali vêm muito desse lugar pessoal. É muito bonito ver esses filhos sentindo que suas histórias e seu passado foram contemplados”, completa Karol.

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