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Dia da Dança: projeto resgata história de bailarinas de cassinos pernambucanos entre 1930 e 1950

Projeto audiovisual 'Bailarinas em Suspeição', idealizado pela pesquisadora Marcela Rabelo, lança videodança e artigo sobre mulheres invisibilizadas da dança nos cassinos de Pernambuco

André Guerra

Publicado: 28/04/2026 às 05:00

Giselly Andrade, Amanda Andrade e Marcela Rabelo, da esquerda para a direita/Foto: Morgana Narjara

Giselly Andrade, Amanda Andrade e Marcela Rabelo, da esquerda para a direita (Foto: Morgana Narjara)

Aproveitando uma data simbólica que enfatiza a resistência de uma arte que carrega a história no próprio corpo e acumula conhecimento na artesania dos movimentos, a pesquisadora e videomaker recifense Marcela Rabelo lança, nesta próxima quarta-feira (29), Dia Internacional da Dança, o projeto “Bailarinas em Suspeição: Mulher, Dança e Trabalho nos Cassinos Pernambucanos”. A proposta chega tanto no formato audiovisual, com a estreia da videodança no canal do YouTube do projeto, quanto no acadêmico, com a publicação do artigo científico que sintetiza anos de pesquisa.

Desenvolvida entre setembro de 2025 e abril de 2026, a iniciativa revisita a época em que os cassinos não eram apenas famosos na capital pernambucana, mas serviam como pontos atrativos de grande mobilização cultural, sobretudo para as elites, de 1930 a 1950. Era uma época também em que inúmeras bailarinas, entre brasileiras e estrangeiras, trabalhavam nesses lugares e tiveram suas vidas marcadas por diferentes estigmas e pela objetificação.

Em entrevista ao Diario, a idealizadora explica que a ideia de investigar o período surgiu em 2016, quando teve acesso à obra “O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos”, organizada pela pesquisadora e jornalista Clarice Hoffman (que integra a equipe juntamente com a antropóloga Selma Albernaz). “Esses documentos me chamaram a atenção imediatamente porque mapeiam toda uma cena artística que envolvia, inclusive, muito além de bailarinos e bailarinas”, descreve. “Apesar de diversos tipos de repressão política e social, estamos falando de um período de grande fervilhamento artístico na cidade. Foi observando isso que, já em 2024, eu voltei a essa pesquisa para repensar e ressignificar a presença feminina em todo esse processo”.

Os tipos de classificação encontrados na pesquisa, que dissecou várias matérias publicadas na época, alternavam-se entre nomenclaturas que refletem a vigilância e o moralismo diante do corpo das mulheres. Utilizando a dança e a linguagem do audiovisual para reorganizar essas estruturas de poder, “Bailarinas em Suspeição” busca reconfigurar esse olhar, valorizando o resgate histórico e dando a essas personagens que viveram o período a estatura criativa que merecem.

“Por mais que tantos anos tenham se passado, as pessoas que trabalham com dança hoje ainda vivenciam muitas formas de preconceito. Muitas vezes, uma bailarina não diz que trabalha com isso em diferentes situações para não ser prejudicada”, ressalta a pesquisadora. “O intuito deste trabalho passa também pela tentativa de promover uma reflexão para que o público perceba como muita coisa mudou nessa construção de olhar, mas alguns estigmas permanecem”.

Ela destaca ainda a importância das mulheres como motor de resistência para, por meio da dança, transmitir suas ideias mesmo em um ciclo que, frequentemente, tenta diminuir sua força. “Historicamente, muitos homens ajudaram a desenvolver projetos de dança, mas, principalmente entre os séculos XX e XXI, as mulheres acabaram capitaneando culturalmente as artes da dança e lutando para conseguir seu espaço. Por isso, esse resgate histórico precisa estar em movimento constante”.

Durante o preparo do artigo e da videodança, a observação das histórias e vivências com artistas contemporâneas despertou novas ideias na idealizadora, que teve a oportunidade, ao longo desses anos de maturação do projeto, de reelaborar diversos conceitos até chegar a um resultado que satisfizesse a almejada representação. “Esses corpos seguem sendo atravessados por julgamentos, mas também seguem criando, resistindo e renascendo em suas formas de existir. Espero que o nosso trabalho toque as pessoas como nos tocou”, completa Marcela.

O projeto tem incentivo do edital de fomento à cultura PNAB 2024 do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura (MinC), e do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura (Secult-PE).

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