Conheça Seu Aurélio, ex-pedreiro que construiu e comanda único cinema de rua do Agreste Setentrional
Seu Aurélio reinaugurou a sala do Cine Aurélio, localizado em Toritama, no Agreste Setentrional em 2016, após anos comandando o antigo Cine São José, que ficava no mesmo endereço
Publicado: 21/03/2026 às 08:00
Seu Aurélio abre o Cine Aurélio, em Toritama, nos finais de semana e durante festivais, como o Curta Taquary. (Crysli Viana/DP Foto)
Com uma área de aproximadamente 3.590 km², distribuída em 19 municípios, o Agreste Setentrional de Pernambuco tem apenas 15,5 metros de largura dedicados à experiência coletiva de ver filmes em um cinema de rua, na sala de exibição do Cine Aurélio, em Toritama. Último sobrevivente do segmento na região, o prédio carrega na fachada o nome de José Aurélio da Silva, o Seu Aurélio, que o levantou e o mantém de pé. Aos 81 anos, ele é o proprietário, projecionista e, quando preciso, até pedreiro e pintor. Tudo isso para que os outros também possam amar o cinema do jeito que ele aprendeu.
Durante sete anos, ele reconstruiu o antigo Cine São José, do qual também foi dono, até concluir as obras em 2016 e reinaugurar a sala, rebatizada como Cine Aurélio. Seu Aurélio comprou a madeira e, com as próprias mãos, foi erguendo cada pedaço. Não houve prego que ele não batesse. “Prefiro fazer eu mesmo. Aí o serviço sai do meu jeito”, explica. A reabertura aconteceu no feriado de 7 de setembro, e foi um sucesso de público, com a exibição de ‘Velozes e Furiosos 7’. “A sensação foi como voltar para o tempo em que eu era criança”, diz.
Homem simples e humilde, desses que vivem com um sorriso pronto, Seu Aurélio ganha brilho nos olhos enquanto resgata as primeiras memórias no cinema — e elas vêm com facilidade. Lembra, por exemplo, quando passava horas espiando as sessões do extinto Cine São Luís, também em Toritama, por um buraco na parede da padaria vizinha, onde seu pai trabalhava. Aos nove anos, o dono passou a convidá-lo para entrar. Ele ia direto para a cabine, onde o filho do proprietário operava o projetor, e lá ficava até o filme terminar. Foi assim que assistiu “O Ébrio”, dirigido por Gilda Abreu, o primeiro de uma lista que só cresceu com o tempo. "Até hoje eu pego esse filme e assisto sozinho aqui", relata.
O COMEÇO
No final dos anos de 1980, trabalhando como pedreiro e já casado com Dona Nenê,recebeu a proposta de alugar o Cine São José, que mais de vinte anos depois daria lugar ao Cine Aurélio. Topou na hora e passou três anos aprendendo o ofício, até que resolveu comprar o espaço em 1992. Quando adquiriu 120 cadeiras e duas máquinas 35mm, descobriu que aquilo não era garantia de público. “O primeiro filme que passei foi ‘King Kong’, preto e branco, e não veio ninguém”, conta. Longe de desanimar, improvisou um salão com 70 cadeiras e uma televisão para mais títulos, especialmente os de karatê. Dessa vez, o público apareceu.
Para alimentar a programação, ia a Caruaru atrás dos filmes. No começo, só encontrava cópias piratas, que viviam falhando. Depois, com as versões originais disponíveis, passou a comprá-las. O acervo cresceu a ponto que decidiu criar uma locadora, dividindo espaço com o cinema. Por um tempo, o sucesso do aluguel foi a principal receita. “Eu exibia o filme e não aparecia ninguém. As pessoas levavam para assistir em casa”, relembra. Com 4 mil filmes, manter os dois negócios ficou insustentável. A prioridade, porém, foi levar a exibição dos filmes em fita cassete da televisão para a tela grande.
A transição exigiu novos equipamentos. Por isso, deixou os 35mm de lado e adquiriu um aparelho que prometia projetar na parede. A empolgação durou pouco. “A imagem era tão fraca que ninguém via nada”, revela, sobre a tentativa de exibir ‘Rambo 3’. Em uma gambiarra daquelas, pintou uma folha de Duratex com tinta de alumínio e a usou como tela. “Melhorou um pouco, mas só quem estava perto enxergava direito”, lembra, rindo da situação. O sofrimento acabou quando comprou um projetor Sony no Recife. “A imagem melhorou uns 90%. Não era o ideal, mas dava para o gasto”, comemora.
Atualmente, o espaço que agora acolhe o Cine Aurélio tem 97 lugares. As sessões acontecem aos sábados e domingos, às 20h, com ingresso a R$ 10 para todos. A falta de demanda em dias úteis inviabiliza sessões durante a semana. A exceção fica por conta de visitas escolares ou festivais, como o festival Curta Taquary, que há sete anos ocupa o espaço e exibiu mais de 60 curtas-metragens de todo o Brasil ao longo da última semana. “É muito bom porque traz gente de todos os cantos”, celebra Seu Aurélio. Na última quarta-feira (18), quando a reportagem do Diario esteve lá, todas as sessões lotaram com estudantes da rede municipal e estadual de Toritama e região.
FUTURO
Em frente ao cinema mora o comerciante Judá Ben-Hur, vizinho de porta da sala de exibição. Sua primeira memória do espaço é da estreia de ‘Titanic’. “A gente ficava contando os dias para assistir aqui, na nossa cidade, aquele filme que marcou época. Quando finalmente chegou, foi sensacional”, recorda. Ele se orgulha da resistência cultural de Toritama, mas lamenta a ausência nas cidades vizinhas. “Cinema é uma coisa que tem que ter em todos os lugares”, afirma.
Mesmo com um projetor moderno e digital, Seu Aurélio segue sonhando com equipamentos melhores. “Queria um daqueles projetores que passam nos outros cinemas, mas é mais de R$ 500 mil. Não vai chegar esse tempo, não. Só com uma doação”, confessa, sem perder a esperança. Agora que a reforma da casa ficou pronta, Dona Nenê já liberou ele para investir no cinema de novo. A lista de desejos é longa. “Tem tanta coisa. A parte técnica, a instalação que eu fiz, a coberta… tudo vai ser revisado”, planeja.
Com sete filhos, Seu Aurélio já ensina os segredos do ofício ao mais velho, Chico. É nele que deposita a confiança para manter o cinema de portas abertas no futuro. “Tô encaixando ele já, para quando eu não puder mais, ele tomar conta”, afirma. Até esse dia chegar, porém, o dono do Cine Aurélio continua chegando todo santo dia às seis da manhã, mesmo sem sessão, testando os filmes e pensando em como melhorar a experiência de quem vem assistir. “É cada vez melhor fazer isso. Me sinto realizado”, celebra.