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Relembre os principais filmes citados por Kleber Mendonça Filho em "O Agente Secreto"

Conheça os filmes e referências cinematográficas trazidas por Kleber Mendonça Filho em "O Agente Secreto", que pode trazer mais um Oscar para o Brasil em 15 de março

André Guerra

Publicado: 02/03/2026 às 06:00

"O Magnífico", "Tubarão" e "A Profecia" estão entre os filmes homenageados pelo longa brasileiro, que concorre a quatro prêmios no Oscar (Reprodução)

A bagagem como crítico e estudioso do cinema se faz notar ao longo de toda a filmografia de Kleber Mendonça Filho. Seu primeiro longa, o documentário “Crítico”, de 2008, já evidencia seu interesse pela relação dos filmes com a cinefilia, assunto em que nem todos os diretores resolvem se aventurar. Em todos os seus longas de ficção, é notável o peso do seu conhecimento como amante da sétima arte, mas é em “O Agente Secreto” que o diretor pernambucano parece ter reunido as suas mais caras referências até aqui — e elas podem ter ajudado ainda mais a obra a se conectar com espectadores internacionais.

Kleber já expressou algumas vezes o impacto que “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis, teve na sua formação como observador da cidade. O longa, lançado em 2002, é considerado seminal no cinema brasileiro da virada do milênio e foi a primeira vez que o realizador viu, na tela grande, a sua cidade refletida. Apesar da diferença de época, várias das imagens do Centro do Recife, em seu calor humano e vibração visual e sonora, são nítidas em “O Agente Secreto”.

Nascido em 1968, Kleber cresceu com vários clássicos hollywoodianos dos anos 1970 e 1980, época em que a ideia de “blockbuster” começou a se popularizar. A referência a “Tubarão” (1975), clássico de Steven Spielberg inaugural desse modelo de megalançamento, é nominal, já que o próprio pôster chega a ser desenhado por Fernando, filho do protagonista Armando (Wagner Moura). Não dá para esquecer ainda o tubarão que aparece morto em uma das primeiras cenas de “O Agente Secreto”, após ter devorado uma perna humana. Mesmo a cena antológica do ataque da perna cabeluda utiliza uma trilha sonora “retrô”, que remete à música de suspense vencedora do Oscar, em 1976, do compositor John Williams.

A citação mais direta de todo o filme, porém, é o terror “A Profecia” (1976), de Richard Donner, exibido no Cinema São Luiz, enquanto Wagner observa da cabine ao lado do projecionista Seu Alexandre (Carlos Francisco). Esse último personagem é outra referência nominal ao verdadeiro profissional da exibição, presente nos arquivos reunidos no documentário “Retratos Fantasmas”, do próprio Kleber.

Ao fim de toda essa sequência no São Luiz, vemos o protagonista de pé, na parte de trás da sala de cinema, olhando para a tela, enquanto é exibido o trailer do filme francês “O Magnífico” (1973), de Philippe de Broca, com Jean-Paul Belmondo. É nesse momento que o título de “O Agente Secreto” vem à tona pela primeira e única vez durante toda a projeção.

Enigmático e livre para diferentes interpretações, o título do filme é também uma maneira de homenagear a ideia cinematográfica a que ele remete. Já há, por exemplo, um filme chamado “Agente Secreto” (1936), de Alfred Hitchcock, sobre um soldado britânico que é enviado para a Suíça e descobre ter tido a identidade trocada e a morte forjada pelo governo. Existe ainda um suspense que recebe o mesmo título e foi lançado em 1996, com direção de Christopher Hampton, e traz um espião que trabalhava para a Rússia e era contratado para provocar instabilidade no país.

É impossível não falar da trilha sonora que se tornou marca registrada da divulgação de “O Agente Secreto”. A música “Guerra e Pace”, composta por Ennio Morricone, tocou originalmente no filme de drama italiano “Venha Brincar Comigo” (1968), selecionado para a edição do Festival de Cannes que foi cancelada devido aos protestos históricos do mês de maio daquele ano.

Vários suspenses setentistas são, de alguma maneira, referendados no clima de tensão e paranoia e ainda na ambientação de época de “O Agente Secreto”, além de várias técnicas típicas do período que Kleber Mendonça costuma trabalhar — a exemplo do uso do zoom e do split diopter, que mantém o foco dividido entre o que está próximo da câmera e o que está distante.

É a união perspicaz dessas citações e sua adequação à realidade e à iconografia do Recife que torna “O Agente Secreto” não um pastiche de referências, mas, sim, algo completamente novo.

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