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Cinema São Luiz no Oscar: Projecionista há mais 20 anos se emociona com sucesso do local nas telas

Projecionista Miguel Tavares conta com exclusividade ao Diario a sua trajetória na função na sala de exibição mais famosa do país atualmente, o Cinema São Luiz

André Guerra

Publicado: 28/02/2026 às 06:00

Miguel Tavares cresceu nos bastidores da exibição e projeção de filmes/Foto: Marina Torres

Miguel Tavares cresceu nos bastidores da exibição e projeção de filmes (Foto: Marina Torres)

É difícil medir quando começou a relação de Miguel Tavares de Lima Filho com os bastidores da exibição de filmes, porque, para ele, esse ambiente sempre foi uma segunda casa. Seu pai, Miguel Tavares, trabalhava no Cinema Veneza, um dos mais tradicionais do Recife (fechado em 1998), onde, quando criança, chegava a disputar com o irmão para ficar acompanhando o pai até tarde no serviço. O que ele jamais poderia imaginar é que essa vida o levaria à cabine de projeção mais famosa e cortejada do país hoje: a do histórico Cinema São Luiz, que é cenário de O Agente Secreto e agora está sob os holofotes do Oscar.

“Ver esse lugar onde eu trabalho há tantos anos projetado por meio das minhas mãos na telona do próprio São Luiz provoca uma emoção que eu não sei nem descrever direito. As sessões sempre lotadas são uma coisa linda demais”, exalta Miguel em entrevista ao Diario, refletindo sobre o sucesso do longa pernambucano no cinema. “Dá um orgulho maior ainda lembrar que pude participar do filme, de certa forma, mostrando essa área restrita da cabine para a produção quando estavam organizando tudo por aqui para gravar”.

A carreira de Miguel perpassa a memória da própria cidade com seus cinemas. Além de ter conhecido o Veneza desde pequeno, ele trabalhou no Cinema Moderno como servente de limpeza ainda no fim da adolescência e, com o encerramento das atividades da sala em 1996, foi trabalhar nos antigos Cines Recife 1-2-3, em Boa Viagem. Após o fechamento desse último, em 1998, ele voltou para o Centro e ficou na mesma função no Shopping Boa Vista. De lá, começou sua jornada no São Luiz, onde está até hoje, sendo, inclusive, o responsável por trocar os famosos letreiros da fachada do equipamento cultural.

“Eu frequentava muito aqui quando pequeno. Vinha ver filmes dos Trapalhões, da Xuxa e vários internacionais também. Quando finalmente comecei a trabalhar no cinema, quis logo observar como os filmes eram projetados”, relembra Miguel. “Só quem podia subir até a cabine eram o projecionista e o gerente, mas eu subia só de teimoso mesmo. Assistia aos rolos de filmes chegando e via o pessoal montando para exibir. Aprendi sem ninguém precisar me ensinar”.

A insistência dele em participar do processo deu resultado. Em uma ocasião, quando os dois encarregados estavam fora, ficou sob sua responsabilidade projetar uma sessão lotada de última hora, com o público inteiro já dentro da sala. Durante o bate-papo com o Diario, ele recapitula o misto de nervosismo e satisfação daquele dia, que transformaria sua vida. “Eu nunca tinha colocado filme para o público e nem deu tempo de testar, coisa que a gente sempre tem que fazer. Estava me tremendo todo. Mas, no final, deu tudo certo”, conta.

Uma das mais importantes figuras do Cinema São Luiz, o saudoso Geraldo Pinho, acompanhou parte dessa trajetória de Miguel, e ele guarda grandes lembranças do programador. “Era atento a tudo e a todos aqui. À troca dos cartazes, dos letreiros, aos filmes que chegavam, às funções de toda a equipe. Era o 10 aqui do cinema e faz muita falta a todo mundo que trabalhou com ele”, reforça.

Dividindo atualmente a função de projeção com João Bosco e Arthur Abdon, Miguel passou por importantes transformações tecnológicas do cinema também, tendo que aprender a projetar no formato digital quando chegou o novo projetor. “No começo é sempre meio complicado, mas, uma vez que você pega o jeito, fica até mais fácil e mais rápido”, explica. “Outro dia chegou uma cópia em 35 mm de ‘O Agente Secreto’ [originalmente feito em digital], e a gente exibiu aqui. É mágico demais o processo”.

Ainda por trás dessa mágica que bate a claquete da exibição para tantos espectadores de Pernambuco e visitantes do Brasil todo, Miguel Tavares é parte indivisível do Cinema São Luiz e da cabine, de onde segue fazendo história.

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