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Peça curitibana "Humanismo Selvagem" chega ao Recife e usa o humor para refletir mazelas sociais

Entre 19 e 22 de março, a companhia curitibana Bife Seco apresenta a tragicomédia "Humanismo Selvagem" no Teatro Apolo, no Recife

André Guerra

Publicado: 19/03/2026 às 05:00

 /Foto: Annelize Tozetto

(Foto: Annelize Tozetto)

Em 2013, quando o Brasil vivia uma onda de protestos que contestava a qualidade de vida no país e polarizava o seu cenário político, o dramaturgo Dimis começou a passar para o papel suas principais angústias naquele momento. Assim nasce o texto do espetáculo “Humanismo Selvagem”, que levou anos para amadurecer até ganhar circulação nacional com a companhia Bife Seco em fevereiro deste ano, abordando temas como o racismo estrutural e a luta de classes. A peça chega ao Recife para quatro sessões no Teatro Apolo, entre os dias 19 e 22 de março, sempre às 19h, com exceção do domingo, às 18h.

A tragicomédia revela as rachaduras de uma família rica em decadência, cuja fortuna foi acumulada sobre uma herança de exploração. Em princípio, o humor domina o tom da apresentação desses personagens, mas, durante a comemoração dos cem anos do patriarca, entra em cena, de surpresa, uma antiga empregada, que faz emergir uma série de traumas e violências veladas ao longo das gerações.

“A ideia é que a peça pareça quase uma sitcom no começo. O público vai achando a brincadeira muito gostosa e leve, apesar de todos os temas, mas chega um momento em que a coisa começa a escalonar com a chegada dessa personagem”, descreve Dimis, que é cofundador da Bife Seco, em entrevista ao Diario. “Essas ferramentas de gênero — da comédia e do terror, principalmente — têm uma capacidade muito grande de conectar as pessoas com intensidade, e os temas vão se infiltrando sem que a pessoa sequer perceba”.

O espetáculo expõe o campo de batalha que pode se instalar em um ambiente doméstico, construído a partir de um longo histórico de racismo e exploração. A provocação e o diálogo com o contemporâneo fazem parte da proposta desde suas origens, como destaca o autor ao analisar o poder da arte brasileira de refletir suas mazelas de formas diversas. “Desde programas como TV Pirata e Casseta & Planeta, que usavam a comédia escrachada para criticar a política, até um filme com a sofisticação de ‘O Agente Secreto’, que também encontra leveza no meio da brutalidade do período da ditadura, somos muito bons em misturar o humor com a dor”.

Uma preocupação essencial de “Humanismo Selvagem”, no entanto, é expandir seu público para além daquele que comunga com suas ideias. Dimis conta que as discussões propostas pela peça precisam ser ampliadas cada vez mais — e essa é uma das razões para o projeto começar a circular. “Não existe cidade mais legal no mundo neste momento do que o Recife, com ou sem Oscar. Não vejo a hora de compartilharmos esse espetáculo de tantas sensações com uma cidade tão cheia de vida e pulsão artística”, comemora.

Nesta temporada, a peça conta com a participação especial do ator Luiz Bertazzo, que integra o elenco do filme “Ainda Estou Aqui”. Também fazem parte do elenco Fernanda Magnani, Flávia Imirene Sabino, Sávio Malheiros, Jeff Bastos, Eliane Campelli, Amanda Leal e Val Salles.

No Recife, a companhia oferece a oficina “Curadoria em Artes Cênicas”, que acontecerá no sábado, das 14h às 18h, no mezanino do Teatro Hermilo Borba Filho, com 20 vagas e inscrição gratuita. A atividade busca estudar o pensamento curatorial nas artes da cena, com início nos anos de 1970, quando a profissão ganhou força. Ministrada pela atriz e diretora Giovana Soar, a ideia central é discutir o avanço desse mercado de trabalho nas últimas décadas e quais ferramentas de elaboração de pensamento e estratégias estão por trás de cada ação, com referencial teórico e exercícios práticos.

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