O serralheiro que carregou os bonecos gigantes mais famosos dos últimos carnavais: "Minha mãe estaria orgulhosa"
Wendel Galdino carregou por dois anos os bonecos mais assediados pelos foliões: Fernanda Torres, em 2025, e Wagner Moura, em 2026
Publicado: 21/02/2026 às 08:00
O serralheiro Wendel Galdino. (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
O serralheiro Wendel Galdino da Silva Barros, de 34 anos, mostra um ferimento no ombro esquerdo enquanto abre um sorriso largo. Parece doer. Na segunda-feira de carnaval, carregou o boneco gigante do ator Wagner Moura, o mais cobiçado neste ano, por três horas e meia, daí o machucado. “Carnaval pra mim é felicidade”, resume.
Também foi Galdino que, em 2025, manipulou a boneca gigante da atriz Fernanda Torres, em alta pelo premiado papel em “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. Naquela ocasião, ela chegou a agradecer o esforço do manipulador de gigantes. “Agradeço de joelhos a honra de você ter carregado meu andor! Sem palavras!”, publicou ela. “Eu fiquei muito feliz”, conta o rapaz, lembrando como foi descobrir que a atriz o mencionou.
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A conversa se dá diante de uma plateia de amigos orgulhosos, que se reúnem em frente à casa do Mestre Camarão, bonequeiro tradicional de Olinda. Aquele grupo cresceu unido, pulando carnavais e as cheias que costumavam invadir suas casas naquela parte baixa da cidade. “A água batia aqui”, diz o amigo Cristiano da Silva, batendo com a lateral da mão na cintura. Cristiano chama Wendel de “Pé quente”, afirma que “o céu é o limite” e conclui que “um de nós venceu”.
"Esse tempo todo ela estava com ele e, quando morre, ele começa a fazer sucesso", lamenta baixinho outra pessoa do grupo. Ela está falando de Josefa Galdino, mãe de Wendel, responsável por ensiná-lo a amar o carnaval.
Nos últimos dois anos, Wendel foi os ombros que carregaram os bonecos gigantes mais esperados pelos foliões, Fernanda e Wagner. Mas a mãe dele faleceu em agosto de 2024 e não pôde ver o serralheiro ser o mais ovacionado nas ladeiras.
Josefa, que por muitos anos foi empregada doméstica em casa de família em Olinda, criou o filho sozinha. Não foram raras as vezes em que o garoto ficou só enquanto a mãe trabalhava. Mas o carnaval era o momento dos dois estarem juntos.
"Minha mãe sempre me levava para ver o carnaval", diz o rapaz, sem conter o choro. Quando ele era adolescente, a empregada acompanhou o primeiro desfile oficial de bonecos gigantes do filho, que carregava a representação de Reginaldo Rossi. E, mesmo ele adulto, a mulher continuou seguindo orquestras ao lado do filho.
Já doente, Josefa parou de acompanhar blocos, mas, com esforço, caminhava até onde conseguisse ver o filho passar.
Encolhido entre a multidão, sob gigantes de quatro metros, Wendel era a atração principal. Não importava quem estivesse sob seus ombros: Conde Só Brega, Nádia Maia, Alceu Valença, Mick Jagger. Era o lampejo do rosto de Wendel que a mãe procurava.
No primeiro carnaval sem ela, o serralheiro não estava preparado para a recepção que a figura de Fernanda Torres iria ter.
"Eu me emocionei quando cheguei com 'Fernanda Torres' até a prefeitura”, diz. A rua em frente à prefeitura é um dos pontos de concentração de foliões. “Quando o pessoal aplaudiu, não tive como segurar. Me arrepiei, foi um negócio muito bonito".
Wendel já fantasiou como seria a reação da mãe em vê-lo na imprensa.
"Ela estaria orgulhosa. Ela diria 'meu filho agora é uma estrela. Tá passando em todos os canais, né, meu filho? Tá famoso'", ele narra.
Wendel continua o diálogo, com um sorriso de quem já viveu aquela cena na cabeça várias vezes: "'Não, famosos são os bonecos. Eu só manipulo eles', eu diria".
Ele, que não é muito ligado em cinema, até assistiu a “Ainda Estou Aqui”, dada a repercussão. “Gostei”, avalia, sucintamente. Agora, ainda procura um tempinho para conseguir ver “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho.
Mas o maior desejo no momento é outro. “Eu queria conhecer Wagner Moura pessoalmente. Eu queria ir com o boneco. Carregar na frente dele. E dizer: 'Olha o que eu trouxe, para dar sorte e você ganhar o prêmio'.”
Não descarta voltar a estudar, seguindo o principal conselho de Josefa, de nunca abandonar os estudos. Ele se afastou da sala de aula no oitavo ano. “Eu queria voltar, mas acho que não tenho mais cabeça para isso”.
Com relação aos próximos carnavais, tem grandes expectativas. “Que tenham mais brasileiros concorrendo a prêmios ano que vem pra que eu possa carregar novamente”.