° / °
Viver
CARNAVAL

Carnaval 2026: Orquestra do Maestro Lessa segue em atividade levando legado do seu fundador às ruas

A Orquestra do Maestro Lessa segue em atividade mesmo após a morte do seu fundador, em 2025, e vai animar diversos blocos tradicionais pernambucanos

Allan Lopes

Publicado: 30/01/2026 às 06:00

Maestro Lessa terá seu legado honrado pela sua própria orquestra/Foto: Divulgação

Maestro Lessa terá seu legado honrado pela sua própria orquestra (Foto: Divulgação)

“Enquanto Deus não me levar, vou fazer carnaval”, costumava dizer o saudoso Maestro Lessa, falecido ano passado, aos 89 anos. Ele cumpriu o prometido até o final. Porém, mesmo que Lessa não esteja mais regendo os blocos e troças que animou por 70 anos, Olinda e Recife continuam, sim, no seu ritmo. Quem garante isso é a própria Orquestra do Maestro Lessa, que segue viva agora nas mãos dos músicos que acompanharam o mestre até seu último cortejo, como é o caso do trombonista Sidengard Pereira, novo regente do grupo.

“Há uma cobrança natural. Por isso, começamos os ensaios no ano passado para termos certeza de que será tudo igual”, revela ele, popularmente conhecido como Sid, ao Diario. Vários blocos que tinham uma ligação com Lessa há décadas vão manter a orquestra que leva seu nome, como é o caso do Amantes de Glória, regido pelo maestro desde seu primeiro desfile em 1997. Na prévia da agremiação neste sábado, às 16h, o músico será lembrado pelo grupo em um momento especial.

Com uma formação de 35 músicos que se revezam durante a folia, a Orquestra Maestro Lessa cumprirá ainda uma agenda intensa de 17 apresentações. Entre os blocos que receberão a orquestra, vários outros também prestarão homenagem ao seu fundador, como as tradicionais Acordar Pra Tomar Gagau, Escuta Levino, Tá Maluco e Caranguejo Papa Mé. Além disso, a Prefeitura de Olinda também anunciou o nome de Lessa entre os homenageados da folia da cidade neste ano.

O maior peso para Sid, no entanto, não será o do trombone, mas o da responsabilidade. Caberá a ele a tarefa de herdar a batuta e o legado de Lessa nos desfiles. “Aprendi praticamente tudo sobre música e sobre gerenciar uma orquestra com ele”, diz o músico, que domina o extenso repertório. Nada de improvisos. Soarão, como sempre, os hinos de Pernambuco, do Amantes da Glória, do Elefante, da Pitombeira, da Ceroula, do Homem da Meia-Noite e do Cariri, junto de clássicos como "Evoé, Evoé", "Arreia a Lenha", "Madeira do Rosarinho", “Voltei, Recife" e tantos outros que extrapolariam este texto.

Nessas mãos, o frevo é a síntese de uma educação musical moldada pela rigidez, generosidade e paixão inabalável que Lessa depositou em seus discípulos ao longo de décadas. No caso de Sid, desde os anos 2000. “Eu tocava com o Maestro Carlos Rodrigues em campanhas políticas. Um dia, Lessa juntou as orquestras, gostou do meu som e passou a pedir ao Carlos me mandar quando precisava. Depois, me fez um convite formal para a orquestra”, relembra. “Ele era justo, mas exigia profissionalismo. Chegar na hora e fazer o certo. Enquanto era trabalho, era sério. Depois, brincadeira. Levo essa linha até hoje”, conta Sid.

Natural de Nazaré da Mata, na Zona da Mata pernambucana, José Bezerra da Silva descobriu o trombone aos 16 anos na Sociedade Musical Euterpina Juvenil Nazarena. A carreira o trouxe para o Recife, onde tocou no Clube das Pás e, há mais de três décadas, passou a reger sua própria orquestra. Com o Vassourinhas de Olinda, cruzou o Atlântico para se apresentar na Bélgica, França e Portugal, em uma turnê organizada por Magdalena Arraes, além de percorrer todo o país. Seu repertório era um dos seus maiores patrimônios, valorizando compositores clássicos do frevo como Edson Rodrigues, Levino Ferreira, Maestro Nunes e Maestro Duda.

Sua obra também ecoou no cinema, com participações nas trilhas de Retratos Fantasmas e O Agente Secreto. Neste último, Lessa é homenageado em vida por Kleber Mendonça Filho, que o mostra regendo sua orquestra em uma cena de carnaval de 1977 – uma licença poética, já que a orquestra só seria criada anos depois. Essa reverência, entre tantas outras, assegura sua imortalidade. A continuidade dessa tradição, agora, está nas mãos de Sid e seus músicos.

Mais de Viver

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas