"Fazer um filme no Recife é torná-lo uma estrela", diz Kleber Mendonça Filho ao Diario
Diretor do filme "O Agente Secreto", Kleber Mendonça Filho recebeu o Diario nesta sexta-feira e comentou sobre o papel do jornal na construção narrativa do filme. O trabalho foi indicado ao Oscar em quatro categorias, na última quinta (22).
Publicado: 23/01/2026 às 19:11
Kleber Mendonça Filho posa com a edição histórica do Diario de Pernambuco, publicada nesta sexta-feira (23) (Foto: Marina Torres/DP Foto)
A última quinta-feira mudou a rotina do Recife. Na hora do almoço, o tema não era futebol, mas as indicações ao Oscar do filme “O Agente Secreto”, em grande parte rodado na cidade. O anúncio dos nomeados paralisou diversas casas e até escritórios.
O apartamento do diretor Kleber Mendonça Filho era um desses lugares, reunindo familiares e amigos com a tensão de uma partida decisiva, seguida, é claro, por uma explosão de alegria digna da conquista de um título. Pouco mais de 24 horas depois, o Diario visitou o local e encontrou um ambiente mais sereno. A poeira da comemoração tinha baixado, mas não o brilho discreto nos olhos do cineasta.
Mais cedo, antes do encontro, Kleber havia postado em seu Instagram a capa da edição de sexta do Diario, que usava um cartaz do filme com uma arte em referência a "Operários", de Tarsila do Amaral, para celebrar a indicação à premiação. “Vou comprar a edição papel”, escreveu na legenda. A reportagem, sabendo do desejo, levou alguns exemplares até ele. “O Diario tem 200 anos e é, literalmente, uma espécie de diário do estado de Pernambuco e da cidade do Recife”, afirma o diretor.
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Sua relação com o jornal vem da infância, quando o impresso era presença forte em casa. “Minha primeira ideia de imprensa veio principalmente com o Diario, nos anos 1970”, diz Kleber. Não por acaso, Kleber fez do veículo, o mais antigo em circulação na América Latina, um personagem d’O Agente Secreto, usando suas páginas para situar a trama no Brasil de 1977. “Como o filme utiliza muito o papel, o desenho, a gravação e todo tipo de artefato para contar uma história, a presença do Diario de Pernambuco nele é simbólica, histórica e, sobretudo, narrativa”, destaca.
Ao longo da narrativa, o jornal surge em cenas cruciais do longa. Sua manchete exibe o saldo de mortos do carnaval do Recife, em um resultado direto da violência da Ditadura Militar. Em outro momento, este um dos mais emblemáticos, é o veículo que narra o caso pitoresco da Perna Cabeluda, lenda urbana que, na vida real, começou a correr a boca do povo a partir de uma crônica de Raimundo Carrero, publicada no próprio Diario.
O diretor de arte Thales Junqueira, junto à sua equipe, foi responsável pela reprodução precisa do estilo gráfico do jornal no período, enquanto o jornalista Cleodon Coelho, pesquisador do filme, escreveu as matérias que aparecem na projeção.
Essa riqueza de detalhes é um dos ingredientes que fazem não só o recifense se enxergar na tela, mas também o espectador de outros estados e do mundo. Ao comentar a capacidade do filme de dialogar com públicos tão diversos, Kleber foi categórico: “O cinema pernambucano é o mais autoral do Brasil”.
Ele mesmo citou como exemplos dessa linhagem filmes rodados em Pernambuco, como “Amarelo Manga” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, além de sua própria trilogia, que se inicia com “O Som ao Redor” e segue com “Aquarius” e “Retratos Fantasmas”. “São obras tão profundamente honestas sobre o seu lugar, que conseguem criar uma comunicação enorme”, comenta.
O diretor rebate com naturalidade as eventuais críticas de que o filme seria "muito local" para paulistas ou cariocas. “Sou de Pernambuco e cresci assistindo novelas da Globo, que são uma produção regional feita na Barra da Tijuca. Eu não sou de lá”, observa Kleber. “Recife é uma cidade como qualquer outra. Fazer um filme aqui é torná-lo uma estrela, como Nova York para os americanos ou Paris para os franceses”, completa.