° / °
Viver
MÚSICA

Silva Barros dá protagonismo à percussão pernambucana em disco de estreia

A bateria do recifense Silva Barros conduz a narrativa do disco "Ponto de Fuga", que já está disponível nas plataformas digitais

Allan Lopes

Publicado: 21/01/2026 às 06:00

Baterista recifense Silva Barros lançou seu primeiro trabalho

Baterista recifense Silva Barros lançou seu primeiro trabalho "Ponto de Fuga" (Foto: Sidarta/Divulgação)

Geralmente relegada ao segundo plano dos arranjos, a bateria ganha novo status no álbum “Ponto de Fuga”, do recifense Silva Barros, que já está disponível nas plataformas digitais. No disco, seu primeiro com o Silva Barros & Grupo, o instrumento é elevado à posição de condutor musical, estruturando harmonias a partir de uma perspectiva enraizada na cultura percussiva de Pernambuco, em um papel narrativo até então pouco explorado.

Porém, na trajetória de Silva, os instrumentos percussivos sempre foram protagonistas. Desde o xilofone de madeira da infância, a percussão já era sua primeira linguagem. As aulas de música instrumental aos sábados na Escola Municipal Florestan Fernandes, no Ibura de Baixo, apresentaram a ele a bateria. “Era algo que me realizava”, conta o baterista em entrevista ao Diario. Logo começou a tocar na banda do diretor da escola e, em seguida, foi conquistando espaço em outros grupos.

O divisor de águas para Silva enxergar a bateria como uma voz capaz de conduzir e narrar foi seu ingresso no Conservatório Pernambucano de Música, em 2015. Lá, sob a orientação do professor Hugo Medeiros, que já integrou o trio de jazz do pianista Amaro Freitas, ele aprendeu a compor a partir do instrumento. “Mudou completamente minha forma de pensar a bateria e a música”, relata.

Através do estudo de técnicas como a polirritmia, que é a sobreposição simultânea de dois ou mais ritmos distintos, o músico desenvolveu um conceito próprio de criação. “A relação entre o bumbo e a caixa, o grave e o agudo, é onde minhas composições muitas vezes começam”, explica.

Entre suas referências, que transitam da vanguarda à música contemporânea, destacam-se nomes como o pianista Shai Maestro, o baterista e compositor cubano Dafnis Prieto e o vibrafonista Joel Ross. No entanto, é o mestre pernambucano Moacir Santos sua maior inspiração. 'A maneira como ele trabalhava os grooves, adaptando claves afro-pernambucanas ao frevo e maracatu, é genial', exalta Silva.

Como ponto culminante dessa trajetória, “Ponto de Fuga” reflete autoralidade na forma e no conteúdo ao longo de sete faixas. O álbum se organiza em três movimentos formados pelas canções “Ponto de Fuga”, “Araripe” e “Chegada”.

A faixa-título, gestada na pandemia, oscila entre pulsos de tensão e alívio, inspirada nas reflexões durante a travessia entre Recife e o município de Bodocó, no Sertão do Araripe. “Araripe” é um baião que homenageia o sertão, enquanto "Chegada” é uma metáfora sobre chuva, renascimento e a chegada da filha Açucena, com participação de Sara Leandro.

Gravado no Estúdio Carranca, no Recife, em uma formação com o próprio Silva, Henrique Albino (sax tenor e flautas), Emerson Coelho (vibrafone) e Filipe de Lima (contrabaixo acústico), o disco não é apenas um marco na carreira de Silva, mas também a conquista de um homem negro do subúrbio que fez da bateria sua voz e da música, seu território.”É sobre poder levar adiante uma pesquisa musical séria, e talvez servir de referência para outros músicos, bateristas, que queiram ser criativos e compositores também”, celebra o baterista.

Mais de Viver

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas