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CRÍTICA

Favorita ao Oscar, Jessie Buckey leva plateia aos prantos em ‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet’

Adaptado do livro homônimo, 'Hamnet' especula sobre as origens da obra-prima de Shakespeare e revela o poder de cura da ficção

Andre Guerra

Publicado: 14/01/2026 às 05:00

Atriz venceu o Critics Choice e o Globo de Ouro, os dois principais prêmios televisionados da temporada /Universal/Divulgação

Atriz venceu o Critics Choice e o Globo de Ouro, os dois principais prêmios televisionados da temporada (Universal/Divulgação)

Muito mais do que uma explicação da origem de uma das maiores peças já encenadas, o livro 'Hamnet', escrito por Maggie O’Farrell, é uma ficcionalização a partir da história real da tragédia que marcou William Shakespeare. Esse e outros eventos do final do século 16 culminariam na criação da sua obra-prima, 'Hamlet'. Como muitos dos registros sobre a vida do dramaturgo passam por uma série de imprecisões, a publicação flerta com a poesia especulativa — característica agora potencializada na adaptação cinematográfica 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet', em cartaz a partir desta quinta (15) no Recife.

No filme, porém, o protagonismo não é de Shakespeare (Paul Mescal), mas de sua esposa Agnes, interpretação memorável de Jessie Buckley, que, após vencer o Critics Choice e o Globo de Ouro, tornou-se favorita ao Oscar 2026. Desobediente e profundamente conectada à natureza, a personagem é considerada “bruxa” pelos moradores da região, mas é justamente a sua espontaneidade que parece ter seduzido William, então um jovem escritor cheio de frustrações.

Eles têm três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet, mas na visão do passado volta a assombrar os dias de Agnes: nela, apenas dois descendentes estão presentes em seu leito de morte. Saber o que vai acontecer, no entanto, não diminui o impacto da experiência emocional deste que é provavelmente o melhor trabalho da diretora Chloé Zhao (vencedora do Oscar por 'Nomadland', em 2021). Pelo contrário, talvez até intensifique e surpreenda a plateia ao longo da adaptação, cujo roteiro é assinado pela cineasta em conjunto com a própria autora da obra original.

Se, durante o primeiro ato, a câmera parece tão imprevisível e ligada aos impulsos da natureza quanto a protagonista, 'Hamnet' se aproxima ainda mais do espectador à medida em que as crianças ganham tempo de tela. O distanciamento de William, que ambiciona uma vida longe dali, amplia a sensação de solidão de Agnes, enquanto Jacobi Jupe, que vive o personagem-título, possui uma maturidade no olhar que transcende sua pouca idade e é responsável por algumas das cenas mais devastadoras do filme.

 

Conhecida por trabalhos que intercalam elementos documentais a uma poética naturalista das paisagens, Chloé Zhao concilia a beleza quase espiritual da ambientação com planos abertos e estáveis que, não à toa, conferem um aspecto quase teatral a sequências-chave. O teatro, afinal, será a base de tudo após o casal viver a maior de todas as perdas.

Defende o filme que a criação da tragédia de Hamlet foi a forma encontrada por William Shakespeare para processar a sua dor. Mas o que realmente dilacera e eleva o coração do público em 'Hamnet' é a maneira como Agnes descobre o poder incalculável de refazer o trajeto do luto para, ao final, dividi-lo com o mundo — e, finalmente, ter a chance de, por meio da arte, não precisar sofrer sozinha.

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